Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Vida em vida — Autores diversos


23


Tempos de hoje

   1 Meus irmãos, filhos de Deus

  Não pensem que sou maluco,

  Sou apenas cantador

  Do sertão de Pernambuco.


  2 Convidado por amigos,

  Minha voz se desemperra

  No sentido de exaltar

  A evolução que há na Terra.


  3 O que eu devia falar

  Usando de garbo e gosto

  É que o mundo de hoje em dia

  Subiu de rumo e de posto.


  4 Mas já fui de meu recanto

  A todos os continentes,

  Não achei progresso algum

  Só vi cousas diferentes.


  5 Não sei se depois da morte

  Sou mais burro por aqui,

  Mas vou falar com franqueza

  Do que eu via e do que eu vi.


  6 Em minha casa de taipa

  Levantada sobre o chão,

  O teto tremia ao vento

  Mas não se via ladrão.


  7 O pessoal no roçado

  Rezava e dormia cedo,

  Agora, a noite do povo

  É rua, polícia e enredo.


  8 Qualquer palavra era dada

  Com segurança e raiz,

  Hoje, a dívida é cobrada

  Com sentença de juiz.


  9 Vestida dos pés ao coco

  Era a pessoa de outrora,

  Vê-se hoje muita gente

  Com muitas peças de fora.


  10 Nas praias então o assunto

  Já se tornou cousa feia,

  Encontra-se em qualquer parte

  Gente pelada na areia.


  11 Uns falam que é por moléstia

  Que estão assim, a contendo,

  E a gente lhes vê na cara

  O riso do assanhamento.


  12 Na capa dos semanários,

  Vinha a flor, vinha a charrua,

  Agora, em qualquer revista,

  Aparece gente nua.


  13 Hoje, muita mulher mãe

  Mudou por fora e por dentro,

  Se há promessa de criança,

  Que vá baixar noutro centro.


  14 Muitos Espíritos lindos,

  Querem corpo no planeta,

  Mas já vivem perguntando

  Como nascer de proveta.


  15 Os meninos do passado,

  Tinham vida e mocotó,

  Agora penso nos filhos

  Das latas de leite em pó.


  16 A carroça, algumas vezes,

  Matava um nos gerais,

  Hoje, a queda de avião

  Mata cem e, às vezes, mais.


  17 Alguém aprendia o mal

  Quando estivesse em prisão,

  Agora, o assunto está livre

  Na luz da televisão.


  18 Em verdade a Medicina

  Progrediu muito no efeito;

  Doentes são bem tratados,

  Mas morrem do mesmo jeito.


  19 Há tantos remédios novos!…

  Não há lista que os resuma

  E o livro nos cemitérios

  Não aponta baixa alguma.


  20 Grandeza dos tempos novos?

  Procuro e não sei qual é,

  Tempo antigo era mais duro

  Mas contava com mais fé.


  21 Progresso humano? Não sei

  Se o mundo anda muito exato,

  Tenho saudades do campo

  De minha choça no mato.


  22 Respeito a Terra de agora

  E a evolução dos ateus,

  Tudo existe para o bem

  Pela Vontade de Deus.


  23 Sei que de tantos empeços

  Nos quais agora me movo,

  Deus em tudo está criando

  O brilho de um mundo novo.


  24 Mas sou sincero. Se agora

  Renascer é minha sina,

  Quero um mundo sem motores,

  Sem guerra e sem gasolina.


Leandro Gomes de Barros


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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