Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Sexo e destino — André Luiz — F. C. Xavier / Waldo Vieira — 2ª Parte


Capítulo 14

(Sumário)

1. Obtendo a dilação de prazo para mais amplos estudos no “Almas Irmãs”, acompanhei o irmão Félix até que se retirasse da chefia para entregar-se à preparação das novas tarefas.

2 O instrutor escolhera a Casa da Providência para se despedir da comunidade.

3 Na data prefixada, desde cedo, as portas do edifício jaziam abertas para quantos quisessem dizer adeus ao querido orientador, que todos os residentes no Instituto consideravam herói. Ministros da cidade, admiradores situados em lugares vizinhos, comissões de vários órgãos de serviço, todas as autoridades da organização, amigos, discípulos, beneficiários e companheiros outros, que procediam de longe, ali se reuniam, irmanados numa só vibração de agradecimento e de amor.

4 Informara-se Régis de que o chefe estimaria rever os doentes nas últimas horas de ação administrativa, mas, convencido de que não conseguiria ele satisfazer a esse propósito, por escassez de tempo, recomendou-nos selecionar, nos setores de irmãos hospitalizados, aqueles que se evidenciassem capazes de comparecer à transmissão de poderes, sem dano para as atividades em pauta.

5 Alinhamos, para logo, duzentos que não criariam problemas e, aspirando a salientar a dedicação incessante de Félix para com os menos felizes, determinou Régis fossem acomodados na primeira fila do auditório, como homenagem silenciosa àquele que os amava tanto… 6 Destacavam-se, quase todos eles enfraquecidos e trêmulos, simbolizando vanguarda de saudade e sofrimento na assembleia, portando ramalhetes nas mãos… Contemplava-os, enternecido, quando Félix chegou, por fim, denotando a firmeza e a serenidade que lhe marcavam as atitudes. 7 Instalou-se, tranquilo, entre o Ministro da Regeneração, que representava o Governador, n e o irmão Régis, que o substituiria; contudo, ao relancear os olhos pelos milhares de circunstantes que repletavam entradas, salões, escadas e galerias, com os enfermos à frente, estampou no semblante abalo inexprimível.

8 Quinhentas vozes infantis, de antemão preparadas por irmãs reconhecidas, cantaram em coro dois hinos que nos arrebataram a culminâncias de sentimento. O primeiro deles se intitulava “Deus te abençoe”, executado por oferenda dos companheiros mais velhos, e o outro se subordinava à expressiva legenda “Volta breve, amado amigo!”, preito de reverência endereçado ao instrutor pelos mais jovens. 9 Emudecidos os derradeiros acordes da orquestra, que imprimira ignota beleza às melodias, os duzentos enfermos desfilaram diante de Félix, em nome do “Almas Irmãs”, que delegava aos companheiros menos afortunados o júbilo de apertar-lhe as mãos, ofertando-lhe flores.

10 A transferência de autoridade foi simples, com a exposição e leitura respectiva de um termo referente à modificação. Cumprido o preceito, o Ministro da Regeneração abraçou, em nome do Governador, o irmão que partia e empossou Régis que ficava.

11 O novo diretor, com a voz de quem chorava por dentro, expressou-se, breve, suplicando ao Senhor abençoasse o companheiro de regresso à reencarnação, hipotecando-lhe, simultaneamente, votos de triunfo nas lides que esposava. 12 Confundido e humilde, acabou convidando Félix não só a usar da palavra, como também a prosseguir exercendo o comando daquela Casa, por direito que ele, Régis, julgava imprescritível.


2. Intensamente comovido, o interpelado levantou-se e, qual se nada mais tivesse a ditar àquela instituição que lhe recolhera mais de meio século de trabalho, alçou a fala em prece:


2 — Senhor Jesus, que te poderia rogar, quando tudo me deste no carinho dos amigos que me cercam na luz do amor que não mereço? Entretanto, Mestre, em nos colocando sob tua bênção, temos algo ainda a implorar-te, confiante!… 3 Agora que novas realizações me chamam na Terra, auxilia-me, por piedade, para que eu seja digno do devotamento e da confiança desta casa, onde, por mais de meio século, recebi a magnanimidade e a tolerância de todos!… 4 Diante da alternativa de tomar novo corpo, no Plano físico, a fim de resgatar débitos contraídos e curar as velhas chagas interiores que carrego por doloroso rescaldo de minhas transgressões, induze, por misericórdia, os amigos que me escutam a me socorrerem com a benevolência de que sempre me cercaram, para que eu não resvale em novas quedas!… 5 Senhor, abençoa-nos e sê glorificado para sempre!…


6 Félix pronunciara as últimas palavras, sobrestando, dificilmente, a emotividade que o traía, mas, como se o firmamento lhe respondesse, de imediato, à apelação, amigos das Esferas superiores ali presentes, conquanto se nos mantivessem inacessíveis ao olhar, valendo-se das forças espirituais de todo o auditório, positivamente orientadas numa só direção, materializaram farta chuva de pétalas luminosas, que desciam do teto a se desfazerem, tão logo nos tocavam a fronte, em vagas de perfume inesquecível.


3. A expectação prosseguia por instantes de jubiloso silêncio, quando um carro estacou, à porta do foro repleto, e, logo após, certa mulher penetrou o recinto, revestida de luz.

2 Num átimo, todos os circunstantes se levantaram, inclusive o Ministro da Regeneração, que a envolveu, para logo, num olhar de fundo respeito.

3 Hesitei um momento só. Reconheci-a, feliz. Era a Irmã Damiana, que integra em Nosso Lar o quadro de campeões da caridade, nas regiões das trevas, de quem conservava Félix o retrato e a quem se ligava por entranhados laços de afeto… 4 A benfeitora, que revelava imensa modéstia, trajara-se de esplendor — daquele esplendor que, decerto, tantos sacrifícios lhe custara, — tão só para mostrar o regozijo com que vinha receber e aprontar para novo renascimento aquele a quem amava por filho do coração!…




4. Quatro anos passaram, celeremente.

Esperança, esforço, trabalho, renovação…

2 Embora nunca me esquecesse de Félix, vários instrutores nos haviam recomendado o afastamento temporário da nova incumbência de que se investia, para não sermos tentados a prejudicá-lo por excesso de mimos. 3 No entanto, quando menos esperava, o irmão Régis enviou-me fraterna mensagem, avisando que cessara o impedimento. Félix vencera todas as lutas no ajustamento ao veículo físico. 4 Alguns dias depois, Cláudio, Percília e Moreira, em serviço no Rio, convidaram-me, em memorando afetuoso, a rever o inolvidável amigo, que todo o “Almas Irmãs” até hoje cerca de infatigável carinho.

5 Revivendo comovedoras lembranças, tornei ao Flamengo; contudo, o tempo tudo alterara. Família diversa ocupava o apartamento que se me vinculava às recordações. 6 Um amigo desencarnado, por solicitação de Moreira, que o cientificara de minha visita eventual, me forneceu, prestativo, o novo endereço, explicando que Gilberto e Marina se viram na contingência de vender a moradia, a fim de atenderem a questões de inventário, meses após a desencarnação de Cláudio. A família morava agora em Botafogo, para onde me dirigi, ansiosamente.

7 Nenhuma frase terrestre para delinear a ventura do reencontro. Cláudio e Percília estavam lá. Moreira, ausente em serviço, chegaria mais tarde. 8 Enleado nas vibrações balsâmicas do acolhimento de meus anfitriões espirituais, revi o casal em palestra com Dona Justa, reavistei Marita, na forma de menina bonita e chorona… 9 Profundamente sensibilizado, contemplei Félix, que passara a chamar-se Sérgio Cláudio, na rósea ternura dos quatro anos de idade. Temperamento visceralmente diverso da irmãzinha, já entremostrava serenidade e lucidez nos pensamentos e nas palavras. 10 Quedara-me impressionado, ignorando como externar a alegria… Era ele mesmo!… Encantado, divisava novamente a chama daqueles olhos inesquecíveis, conquanto brilhasse num corpo de criança despreocupada…

11 Cláudio e Percília informaram-me que Nemésio fora conduzido ao Plano espiritual, um ano antes, em seguida a escabrosos padecimentos. 12 Contaram que verdadeiras maltas de obsessores ameaçavam o apartamento de Botafogo, quando o pobre companheiro se achava prestes a partir. 13 Percília, porém, acompanhara o movimento intercessório que se levantara em favor dele, no “Almas Irmãs”. Amigos devotados interpunham recursos, deprecando caridade e misericórdia, quando se soube que a Justiça, no Instituto, o considerava incurso em definitivo banimento. 14 Antigos companheiros, em apelos calorosos, mencionavam os gestos de beneficência que praticara, ao tempo de Dona Beatriz, somados ao triênio de enfermidade e paralisia que suportara, resignado. 15 Diante dos empenhos multiplicados, de que o próprio Irmão Régis partilhava, já que, seguindo a orientação administrativa de Félix, inclinava o poder à benevolência, os magistrados permitiram a reabertura do processo para debates amplos. 16 Reposto o assunto em exame, a Casa da Providência enviara dois notários a Botafogo, para instruir com segurança as petições que se adensavam; todavia, os serventuários tinham chegado exatamente na ocasião em que Nemésio, parcialmente desencarnado, enlouquecera ao descobrir, em derredor do refúgio doméstico, a presença das companhias infelizes que irrefletidamente cultivara. 17 Verificando-se o inesperado, os juízes, por espírito de equidade, recomendaram se lhe conservasse a demência por benefício, no que, aliás, tinham sido referendados pelo Irmão Régis, porquanto essa era a única fórmula pela qual se lhe podia dar uma guarda conveniente, de modo a subtraí-lo à sanha de malfeitores desencarnados, que anelavam possuir-lhe o concurso em vilezas, tão logo alijasse o corpo destrambelhado. 18 Em vista dessa bênção, obtivera a internação num manicômio respeitável, mantido pelo “Almas Irmãs” em região purgatorial de trabalho restaurativo, onde continuava em tratamento vagaroso, incapaz de assumir compromissos novos com as Inteligências das trevas.

19 Quanto a Márcia, andava doente, mas arredia. Nunca mais retornara ao convívio familiar, não obstante o interesse incansável de Gilberto e Marina para reaver-lhe a confiança. Dizia detestar parentes. Apesar de enferma, bebia e jogava com desatino. 20 Cláudio acentuava, porém, que os filhos espreitavam ensejo, a fim de apresentar-lhe os netos. E Percília aditava que eu chegara justamente na véspera de tentativa promissora. Naquele sábado, pela manhã, o casal se inteirava de que ela frequentava diariamente a praia de Copacabana, descansando na areia a fim de inalar os ares puros do mar alto, a conselho médico. 21 No dia imediato, domingo, Gilberto e a companheira contavam com tempo bastante para nova investida à conquista da suspirada reconciliação. Estava convidado a cooperar. Descansasse ali, junto deles. Aguardasse.

22 Entretemo-nos largo tempo, em torno das maravilhas da vida. Percília comparou a experiência terrestre a um tapete precioso, de que o Espírito reencarnado, tecelão do próprio destino, somente conhece o lado avesso.

23 Noite avançada, apareceu Moreira, acrescentando-nos a cordialidade reconfortante.

24 Recolhido, por fim, ao repouso, aspirei a aproximar-me de Sérgio Cláudio, para auscultar-lhe a posição espiritual naquela fase da infância, mas sufoquei o impulso. Prometera, de minha parte no “Almas Irmãs”, nada praticar, em nome do amor, que lhe arriscasse o desenvolvimento tranquilo.

25 Vali-me dos momentos de calmaria para estudar, refletir, recordar…

Manhãzinha, achávamo-nos a postos.

26 Marina, madrugadora, movimentou-se às seis e, às oito horas, sob os desvelos de Dona Justa, a família se reunia à mesa, em ligeiro repasto, prelibando os divertimentos da praia. Marita queria o maiô verde e a lata de bolo. Sérgio Cláudio preferia sorvete.

27 Antes da saída, a esposa de Gilberto, revelando admirável madureza, pensou na missão que demandavam, lembrou-se de Cláudio, sentindo-se espiritualmente assistida por ele, e pediu aos dois garotos orassem juntos.

28 O pequeno empertigou-se no meio da sala e recitou a prece dominical, seguido pela irmãzinha que, embora mais taluda, gaguejava numa ou noutra expressão.

29 Em seguida, Marina solicitou ao pequerrucho: — Meu filho, recorde em voz alta a oração que ensinei a você ontem…

— Esqueci, mãezinha…

— Comecemos outra vez.

30 E, erguendo a fronte para o Alto, na atitude reverente que lhe conhecíamos, o menino repetiu, uma a uma, as palavras que ouvia dos lábios maternos:

— Amado Jesus… nós pedimos ao senhor trazer vovozinha… para morar… conosco…

31 A pequena caravana, acompanhada por nós, desceu do ônibus nas adjacências da praia. Nove da manhã. Sol esplêndido. Éramos quatro companheiros desencarnados, junto aos quatro.

32 Para que Dona Márcia não lhes prejulgasse as intenções, Gilberto e Marina resolveram mergulhar, imitando as crianças. Em torno, milhares de banhistas que compartilhavam, risonhos, a festa permanente da Natureza. O bancário e a mulher, a se entreolharem, de maneira significativa, vasculhavam recantos, aqui e acolá… Pesquisaram, até que enxergaram Dona Márcia, em maiô, estirada sob tenda acolhedora. Parecia cansada, triste, conquanto sorrisse para o bando álacre das amigas.

33 Cláudio, emocionado, ponderou que dispúnhamos da possibilidade de envolvê-la em reminiscências edificantes.

Acercamo-nos dela, enquanto Gilberto e Marina, com os rebentos, se aproximavam, guardando aparente despreocupação.

34 Sob nossa influência, a viúva Nogueira começou, inexplicavelmente para ela, a pensar na filha… Marina! Onde estaria Marina? Que saudades! Como lhe doía agora a separação!… Como lhe tinha sido espinhoso o caminho!… Rememorava o lar, de ânimo opresso, revia o princípio… Cláudio, Aracélia, as filhas e Nemésio rearticulavam-se-lhe na imaginação, reintegrando quadros de amor e dor que jamais pudera esquecer!… Tanta amargura seria a vida? E indagava-se, de alma inquieta, se teria valido a pena existir para alcançar a velhice em tamanha solidão…

35 Nisso, percebe que a turma se avizinha, ergue-se, assustada, e reconhece o grupo, observando-se apanhada de surpresa. Atônita, fixou Marina, Gilberto e Marita, de relance; entretanto, ao esbarrar com os olhos de Sérgio Cláudio, quedou enlevada!… “Oh! Deus, que estranha e linda criança!…” — monologou no íntimo.

36 O menino largou, apressado, a destra materna, após lhe haver Marina cochichado algo aos ouvidos, e atirou-se a ela, gritando, comovedoramente:

— Ah! vovó! Vovozinha!… Vovozinha!…

37 Márcia estendeu maquinalmente os braços para acolher aqueles braços diminutos que a enlaçavam… O minúsculo coração, que passou a bater de encontro ao dela, figurou-se-lhe um pássaro de luz que descia dos céus a pousar-lhe no tórax abatido. Fez menção de oscular o pequenino, mas recônditas impressões de felicidade e de angústia lhe infundiam sensações de amor e medo. 38 Por que lhe despertava o netinho tão contraditórios pensamentos? Antes, porém, que se decidisse a acariciá-lo, Sérgio Cláudio levantou a cabeça que lhe entregara por momentos ao ombro nu, e cobriu-lhe o rosto de beijos… Não houve mecha de cabelos que não alisasse com dedos ternos e nem ruga que não afagasse com os lábios enternecidos. 39 Enleada, Márcia recolheu as saudações dos filhos, abraçou a menina, que via igualmente pela primeira vez, referiu-se à saúde e, quando entrou a comentar, quanto à vivacidade dos netos, Marina recomendou ao filhinho declamasse a prece da vovozinha, que pronunciara em casa, antes de sair.

40 Sérgio, com a noção inata do respeito que se deve à oração, despencou-se do regaço a que se agarrara, perfilou-se diante de Dona Márcia, fincando os pés rechonchudos na areia… E, cerrando os olhos, em laboriosa diligência de imaginação para ofertar de si mesmo aquela manifestação de carinho, repetiu, firme:

— Amado Jesus, nós pedimos ao senhor trazer vovozinha para morar conosco…

41 Dona Márcia prorrompeu em lágrimas copiosas, enquanto o pequenino se lhe asilava, de novo, nos braços que tremiam de júbilo…

— Que é isso, mamãe? A senhora chorando? — Inquiriu Marina, carinhosa.

— Ah! minha filha! — Respondeu Dona Márcia, aconchegando o neto ao peito, — estou ficando velha!…

42 Logo após, despedia-se das companheiras, avisando que naquele domingo almoçaria em Botafogo, mas, intimamente, estava persuadida de que não mais largaria a residência da filha em Botafogo, nunca mais…

43 O menino prendera-lhe o coração.

Acompanhei o grupo até o asfalto. Gilberto, feliz, chamou um táxi. Cláudio, Percília e Moreira, que seguiriam, de volta, me abraçaram em festa. Contemplei o carro que deslizou na direção do Lido, para seguir adiante…

44 Sozinho em espírito, diante da multidão, confiei-me às lágrimas de enternecimento e regozijo. Ansiei abraçar aquela gente generosa e espontânea, que brincava entre o banho e a peteca, ensaiando a fraternidade por família de Deus…

45 Cambaleando de emoção, tornei ao local em que Márcia e o neto tinham fruído o reencontro sublime, a simbolizarem para mim o passado e o presente, urdindo o futuro na luz do amor que nunca morre. Osculei o chão que haviam pisado e orei, rogando ao Senhor os abençoasse pelos ensinamentos de que me enriqueciam… 46 Dos milhares de companheiros reencarnados, em risonha agitação, nenhum me assinalou, de leve, o culto de reconhecimento e de saudade. O mar, entretanto, qual se me visse, compadecido, o gesto medroso, arremessou extenso véu de espuma sobre o trato de areia que eu beijara, como se quisesse guardar a nota apagada de minha gratidão e reverência, na pauta das ondas, incorporando-a à sinfonia imponente com que não cessa de louvar a beleza sem-fim.


André Luiz

FIM



[1] [Autoridades de Nosso Lar, do qual Almas Irmãs é uma jurisdição.]


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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