Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Sexo e destino — André Luiz — F. C. Xavier / Waldo Vieira — 1ª Parte


Capítulo 9

(Sumário)

1. Instalados na sala de visita, os cônjuges entrefitaram-se de estranha maneira. Adversários declarados, em tréguas cordiais.

2 Dona Márcia definia-se. Espécime comum das damas que lutam, garbosas, contra as arremetidas do tempo. Ninguém lhe atribuiria os quarenta janeiros integralmente dobados. Os cabelos abundantes, que os líquidos medicinais mantinham perfeitamente escuros e brilhantes, acomodavam-se num penteado gracioso que lhe guarnecia o rosto, semelhante ao das pessoas que se maquilam para efeitos de arte e que nunca se deixam analisar realmente sem que a água quantiosa lhes restitua os poros à caricia da Natureza. Delgada, na magreza característica dos que usam moderadores do apetite para a manutenção do peso ideal, apresentava-se em figurino da alta. O fundo alvo do linho, ligeiramente estampado de pequeninas flores róseas, dava-lhe ao vestido primoroso certa diafaneidade que lhe realçava a beleza quase outoniça.

3 Era a mesma criatura das telas mentais de Marina, exibindo-se, porém, de modo diverso, espécie de livro, claramente identificável, mas exposto numa encadernação mais viva e mais rica.

4 Pela herança e pela convivência, talhara, sem dúvida, o aspecto da filha única, porquanto, sentada agora, lembrava Marina em todos os traços, conquanto muito mais asserenada e amadurecida. Longe de aparentarem a verdadeira condição de mãe e filha, podiam ser interpretadas à conta de irmãs, salientando-se que Dona Márcia se revelava talvez mais simpática, pela brandura estudada dos gestos.

5 Via-se-lhe com tranquilidade o sorriso espontâneo, sorriso, no entanto, que mostrava o engenhoso artifício dos que se distanciam deliberadamente dos problemas alheios para que não lhes constituam empeço ao avanço. Doçura trabalhada do egoísmo atencioso, pronto a sorrir, nunca a se incomodar.

6 Ainda assim, os olhos, ah!… Os olhos traíam-lhe a alma sibilina. Fisgados no esposo, pareciam interessados em agarrar-lhe as mínimas reações, em proveito próprio.


2. Ela não aspirava a conhecer qualquer vestígio da conduta dele, anelava encobrir-se. Serena e bem-posta, renteando o marido, dava a impressão de um viajante hábil, preocupado em ilaquear o guarda-barreira, a fim de seguir, incólume, caminho adiante, sem largar as aquisições clandestinas. 2 Por outro lado, o marido assemelhava-se ao guarda-barreira, calejado no suborno, mais aplicado em resguardar-se, que em denunciar viajores, tão matreiros quanto ele próprio. Naquela hora, sobretudo, em que fora quase detido em culpa flagrante, esmerava-se em mesuras. Amodorrava-se para ouvi-la, com a pachorra de um cão astucioso que parasse de caminhar, atento às falcatruas do gato.

3 Para Cláudio, em tal circunstância, valia estudar tudo, ouvir tudo. Afinal, aquilo era inevitável. Márcia chegara ao quarto de Marita num momento psicológico. Imperioso esfumar-lhe qualquer dúvida ocorrente, à custa de uma tolerância que não mais praticava, desde muito. Para isso, estirava-se, ali, sossegado e complacente.

4 Nos dois, porém, flutuava a desconfiança recíproca. Duas bocas que se entendiam, duas cabeças que discordavam uma da outra. Cada frase vinha pré-fabricada na garganta, dissimulando o pensamento.

5 Adocicando a voz, a esposa comentou os aborrecimentos no bufete do baile beneficente em que havia funcionado. Muita gente. Alguns jovens embriagados, forjando obstáculos. Garotos furtando. Por tudo isso, estafara-se.

6 Desconfiando que o marido, não obstante mostrar-se quase afetuoso, não se inclinaria a longa conversação, quis reter o momento raro, tornando-se mais terna.

7 Afável, estendeu-lhe prateada carteira.

Cláudio agradeceu. Não queria fumar. Ela, no entanto, bateu, várias vezes, a ponta do cigarro, de encontro a pequenina bolsa metálica, fez fogo num isqueiro diminuto, e, após envolver-se em baforadas, relaxou-se na poltrona, sugerindo a intenção de exprimir-se mais à vontade.


3. — Imagine você, — aduziu, cuidadosa, — que embora o sarau esteja longe de terminar, larguei tudo. O leilão de prendas esperava por mim, quando senti um constrangimento esquisito. Tive medo. Passei minhas obrigações para Dona Margarida e voltei. Atormentava-me, supondo houvesse algo atrapalhado em casa, alguma ligação elétrica esquecida, a presença de algum malfeitor. 2 Vejo, porém, que você talvez tenha tido o mesmo palpite e chegou antes, retificando o fogão… Felizmente, tudo passou… Mesmo assim, reconheço que o meu regresso foi providencial, pois, desde muitos dias, venho espreitando um momentinho em que você esteja calmo e bem-humorado, como agora, para tratarmos, juntos, de assunto sério… Coisa que nos toca de perto, que não posso decidir sem você.


4. Neves e eu notamos, para logo, o regime de choques e contrachoques em que respiravam aquelas duas almas adversas, aprisionadas socialmente uma à outra, por exigências da provação. 2 Inferindo que a companheira se lhe aproveitaria da benevolência eventual para chamá-lo a questões de responsabilidade, Cláudio despiu a máscara afetiva com que a brindara, de início, e, taciturno, colocou-se em guarda. 3 Do sorriso, tornou ao sobrecenho. Fino sarcasmo tisnou-lhe os modos. Comandou a palavra, buscando, em vão, disfarçar o azedume. Afirmou-se fadigado, alegou esgotamento adquirido em horários de serviço extra e rematou, pedindo à esposa resumisse, quanto possível, o que tinha a dizer-lhe. Queria ler, pensar, refazer-se.

4 A esposa fingiu não ver o olhar irônico que ele lhe endereçava e começou referindo-se ao cansaço de que se sentia possuída.

5 Possivelmente, ele próprio ignorasse; entretanto, submetera-se a vários exames, por solicitação do ginecologista. Desde muito, atravessava as noites em claro, sofria palpitações, sufocações, sensação estranha de peso, calores no peito. O médico acreditava em menopausa precoce e receitara. 6 Ela, contudo, supunha-se depauperada, neurastênica. Exauria-se nos problemas domésticos. A arrumadeira despedira-se. E, desde que se fora, via-se obrigada a passar roupa, encerar, e, de certo modo, auxiliar no fogão para que Dona Justa não esmorecesse. 7 O conserto da geladeira custara um dinheirão. As contas, no fim do mês, haviam aumentado. Marina trouxera duas gratificações que recebera em serviço extraordinário, mas, ainda assim, estava onerada. Tinha necessidade de quinze mil cruzeiros.

8 Nesse tópico da entrevista, o interlocutor fitou-a, sarcástico, e indagou:

— É só?

9 A interrogação, carregada de zombaria, pairou no ar da mesma forma que uma chicotada cortante.

Dona Márcia emudeceu, ao impacto da desconsideração inesperada.

10 O marido não dispensara sequer a mínima atenção aos padecimentos orgânicos de que se queixara. Desconhecia-lhe, de propósito, os achaques. Enquanto relacionava os incômodos de que se via acometida, assustara-se ao divisar-lhe a dura expressão dos olhos frios. Conhecia aquela atitude gelada de profundo desdém. 11 Ao passo que se lamentava, tinha a impressão de que ele, Cláudio, lhe perguntava em pensamento: “por que não acaba você de morrer?” Em outras ocasiões, chegara a enunciar semelhante inquirição, com palavras redondas, claramente pronunciadas e repetidas. 12 Por que tanto ódio? Indagava a si mesma. Não contava receber uma ternura que os atritos incessantes haviam incinerado entre ambos; contudo, cria-se com direito a pequeno retalho de acatamento. 13 Se ele adoecia, de leve, conquanto não o amasse, vigiava-lhe a cabeceira. Zurzia o clínico da família pelo telefone. Todas as providências à hora. Entretanto, ao referir-lhe o tratamento que reputava importante, a fim de evitar uma cirurgia comprometedora, recebia dois monossílabos secos que o marido lhe pespegava no rosto, como se a repelisse com dois calhaus.


5. Persistindo o silêncio que se alongava, Cláudio fez menção de retirar-se; contudo, a esposa frustrou-lhe o impulso, exclamando, agora irritadiça:

2 — Não saia. É preciso que você fique. Esta casa não é minha só. Acaso, não está vendo? Marina e Marita… Criam-se os filhos com desvelo, com carinho… Em crianças, são anjos; crescidos, são pesadelos. Tenho sofrido calada, mas agora… Isso não pode continuar sem que você se mexa. Entre uma e outra, não é possível a indiferença. Acolhi essa menina estranha em meus braços como se fosse minha própria filha. Suportei afrontas, esqueci minha saúde, meu tempo… Não me poupei, fiz o que pude… Nada lhe faltou, entretanto, hoje…

3 — Hoje, o quê? — Revidou o esposo, admirado.

— Pois você não percebe a humilhação a que Marina se expõe? — Acentuou a companheira, em lágrimas súbitas, qual se estivesse habituada a chorar, quando quisesse. — Você não enxerga as dificuldades de nossa filha?

4 Cláudio riu-se, como quem decidira zombetear.

— Márcia, deixe de cenas… Você fala em Marina, como se a nossa desmiolada estivesse na forca. Não entendo. Vejo-a feliz e desorientada, como nunca. Se me detiver em qualquer problema dela, será para admoestá-la, reprimi-la. Não fosse você com o desregramento de suas concessões e com os seus maus exemplos, haveria de corrigi-la, ainda que obrigado a interná-la no hospício…

5 — Que ouço, meu Deus? — Gritou a senhora.

Estancara-se-lhe o pranto, alarmada que se achava, ao verificar o rumo improviso do entendimento.

— Você ouve a pura verdade, — prosseguiu Cláudio, implacável. — Ainda anteontem, impelido por dever da profissão a comparecer num coquetel, oferecido a um dos chefes, numa casa de regalias noturnas, fui constrangido a pretextar uma enxaqueca e afastar-me. Sabe por quê? Nossa filha, que você pretende inculcar por santa, estava lá, positivamente nos braços de um cavalheiro maduro e bem-posto, que não a beijava paternalmente. Senti tanta vergonha, que pedi a um colega me representasse, e saí, à pressa, antes que Marina me percebesse.

6 — Oh! a pobrezinha!… — Objetou Dona Márcia, faces em fogo, tremendamente revoltada.

Naquele instante, os dois tiravam, mecanicamente, os últimos disfarces. Postavam-se, em espírito, um à frente do outro, com rudeza indissimulável. Dois inimigos soberanos, aversão contra aversão.

7 E o diálogo azedo continuou:

— Pobrezinha, por quê?

8 A esposa mediu-o, de alto a baixo, com um olhar de zombaria, e passou a acusá-lo:

— Não quero discutir agora a sua presença de homem velho e casado, numa casa de tolerância, pois não acredito nessa história de homenagens a chefes, em horas avançadas da noite. Você foi sempre imoral, indigno, mentiroso, mas, por amor à família, esqueço tudo isso, para que você conheça toda a situação…

9 Refletindo na conveniência de sensibilizá-lo para os efeitos a que se propunha, Dona Márcia baixou calculadamente a escala de rispidez, abrandando a inflexão da voz que se tornara por demais agressiva.

— Cláudio, atenda, — continuou quase melíflua, — Marina, obediente, nunca me ocultou a verdade. Não proceda com malícia; desde a piora da esposa do senhor Nemésio, vem repartindo, caridosamente, o tempo, entre as obrigações do emprego e o lar do chefe, onde a infeliz senhora vem morrendo, pouco a pouco… Impossível que você não lhe admire a abnegação, porque, de modo algum, precisaria interessar-se pela vida íntima da família Torres, a ponto de velar junto deles, por várias noites consecutivas, por simples espírito de sacrifício… Não sei se você chega a vê-la, quando volta de manhã, mostrando fundas olheiras e faces pisadas.

10 Na mente inventiva do interlocutor, entretanto, operava-se complicada reviravolta. Assinalando as palavras injuriosas de Dona Márcia, sentira ímpetos de esbofeteá-la. A indignação ruborizara-o; todavia, conteve-se. Não que desistisse de revidar chasqueando, mas permanecia convicto de que Marita escutava. Aspirava a conquistá-la a qualquer preço. Mormente agora que se declarara, não estava inclinado a recuar. Prosseguiria.

11 Dona Márcia, enganada, aceitara a versão do pesadelo e acreditava que a moça dormisse, de vez que lhe recebera a presença no quarto sem dizer palavra.

12 Ele, porém, sabia-se ouvido, examinado. Não adotaria qualquer procedimento incompatível com a galanteria que começara a desenvolver. Se esbravejasse, agravaria a distância. Deliberou aguentar remoques e insultos, fossem quais fossem, estudando como orientar-se na conversa para tirar o melhor partido.

13 Além disso, o amigo desencarnado, ao lado dele, acalentava-lhe a rijeza de alma, insuflando-lhe ideias. A fabulação de um complementava-se no outro. Concluíam, juntos, que se fazia mais razoável para eles examinar minudências e falar com intenção. Manejariam Márcia para alcançar Marita. A interlocutora ser-lhes-ia instrumento. Usá-la-iam por trampolim, rumo ao alvo.

14 Todas essas considerações relampeavam no espírito de Cláudio, enquanto a senhora se empenhava justificar-se, na defesa da filha. Dominado pelos novos pensamentos, não sorriu, mas suavizou a expressão, como quem se resigna aos ditames da paciência.

15 Algo desarmada por aquela impassibilidade que se lhe figurava benevolência, Dona Márcia continuou:

— Acontece que o senhor Torres se encontra francamente desarvorado, diante da tragédia que a fortuna dele não pode conjurar. Dinheiro farto e coração abatido, negócios prosperando e morte à vista. Nossa menina compadeceu-se. Tanto amparou a doente que acabou descobrindo os sofrimentos do homem que se aproxima, conscientemente, da viuvez… É por isso que vem buscando revigorá-lo, como pode…

16 — Mas, assim como estão fazendo?! Afogando-se em bebidas e prazeres noturnos, em que os dois se assemelham a duas crianças destemperadas?! Não os vi rezando pela tranquilidade da enferma…

— Deixe de ironias. Você, com toda a certeza, numa situação igual, não se consolaria com lágrimas, procuraria distrações. Não há inconveniente algum em que o senhor Torres, numa hora dessas, se dirija para um ambiente alegre, a fim de ganhar forças, e não vejo maldade em que trate Marina por filha dele próprio, afagando-a por boneca mimada que sempre foi. Muito justo, muito claro. Dona Beatriz e o esposo conseguiram somente um filho, não tiveram, como nós, a ternura de uma filhinha no lar e nem adotaram alguma pequenina estranha a eles. Marina dá conta a mim, que sou mãe, de tudo o que se passa. Você sabe que ela é profundamente sensível e carinhosa. Tem muita pena do chefe e tenta reconfortá-lo..

17 — Reconfortá-lo? — Gracejou Cláudio, retomando a galhofa.

— Não adiantam sarcasmos, — rogou Dona Márcia, afetando desapontamento. — Nossa filha vem agindo corretamente. Tanto assim que a nossa conversa deve esclarecer grave assunto.

18 E, alterando o tom de voz, que se fez mais persuasivo e mais doce:

— Você não ignora que Marita se enamorou, há meses, de Gilberto, o filho dos Torres. Vendo, de minha parte, os dois, em ligação constante, acreditei piamente que o jovem nutrisse por ela uma inclinação segura.

19 Misturando reserva e malícia, passou a historiar-lhe as entrevistas, os passeios, os telefonemas, os bilhetes… Salientou que se afligira ao apanhá-los, a sós, numa excursão domingueira, em plena floresta da Tijuca, dias atrás. Admitia que seria preciso examinar-lhes o caso. Aborrecera-se ao descobri-los, assim, positivamente isolados, sob as árvores. Mulher e mãe, inquietava-se ao pensar na filha adotiva…

20 Cláudio, nessa altura, marcava-lhe os avisos, de olhos em fogo e coração aos saltos.

Então Márcia também sabia… Aquele jeito arisco da esposa nas confidências não o enganava. Indubitavelmente, ela senhoreava minúcias que preferia esconder. Não chegava Paquetá. A mataria, igualmente, fora teatro dos colóquios e beijos que detestava. Não esperava aquele noticiário miúdo na própria casa. Não supunha a mulher, assim, consciente da situação de que se conjeturava exclusivo conhecedor. Naquele minuto, olvidava a menina que se lhe desenvolvera nos braços, anulava-se na condição do pai, chamado a zelar-lhe o nome. Irrompia nele o animal ferido, o homem selvagem que lhe dormia habitualmente na polidez, espicaçado pelo ciúme.

21 Esfregando os dedos contra as palmas das mãos, num gesto que lhe particularizava o desagrado, levantou-se, deu alguns passos pela sala e resmungou:

— Ingratidão!

22 A esposa usufruía a cena com a volúpia de quem alcançava os próprios fins, porquanto, desde o princípio da conversação, aspirava a estabelecer um clima favorável à filha legítima, a detrimento da outra. Julgava que o marido, com semelhante exprobração, resumia numa palavra o asco que provavelmente albergaria contra o procedimento da pupila que desejava arredar. Muito distante da realidade, não percebia que a indignação dele se arraigava no azedume do apaixonado que se vê preterido e, por isso, ensaiava um sorriso triunfante…

23 Nós, porém, conseguíamos analisar-lhe as telas mentais [referindo-se a Cláudio] e verificar quanto lhe doía o desprezo. Via-se, espiritualmente, ao pé do jovem, medindo forças. Ah! Se lhe fosse dado enxergá-lo, naquela hora, ao alcance das mãos! Certo lhe despejaria todo o peso da cólera na constituição de menino e moço, esfrangalhando-lhe os ossos…

24 — Comove-me a sua reação contra Marita!…

Registando a frase reticenciosa da companheira, deu-se conta do papel desaconselhável que começava a assumir. Quase que se denunciara, de todo. Ultrapassara os limites da circunspeção que lhe cabia conservar no próprio interesse e deliberou recompor-se. Reconheceu que Márcia lhe apreciava a repulsa, crendo vê-lo unicamente no lugar de pai, machucado pelas circunstâncias, e deixou que ela se acomodasse a essa interpretação, encastelando-se, mentalmente, na defensiva. Reprimiu o desespero que o possuía, sentando-se, de novo, a relaxar os nervos tensos. Apagou exteriormente todos os sinais de excitação, aparentou calma súbita.

25 A senhora, que ambicionava amontoar vantagens para a filha, longe de imaginar-se iludida naquele jogo, em que marido e mulher se nos representavam dois parceiros astuciosos, nos golpes estudados um contra o outro, falou serena, presumindo controlar agora toda a situação:

— Sua atitude respeitável de pai me encoraja e me alegra. Graças a Deus, sinto em você o chefe da casa e da família.

26 Cláudio ouvia, atento.

— É necessário que você saiba, — prosseguiu ela, — que Gilberto não quer coisa nenhuma com Marita, que vive a derreter-se sem razão. O rapaz é apaixonado por Marina e tudo indica possibilidades de um casamento vantajoso, que não podemos jogar fora.

27 O interlocutor ardiloso deduziu que chegara para ele a oportunidade da vingança. Fingindo desconhecer a trama de sentimentos em que ambas as jovens se enredavam, comentou, em voz alta, os novos aspectos do problema, a fim de ser claramente escutado por Marita, que sabia de atalaia, no quarto próximo. Depois de encarecer a excelência do caráter da filha adotiva, destacando o apreço e a ternura com que se dedicaria a protegê-la, acentuou, jocoso:

28 — Ah! O biltre!… Então, essa farsa de vaguear com Marita, arrastando-a por aí, não é senão alcovitice e trampolinagem… O peralta está carambolando. É o bilhar dos namorados, bate-se numa bola para acertar em outra…

29 E relacionou pobres moças, traídas na confiança, explicou que Marita era suscetível de uma psicose de duras consequências. Se Gilberto estava propenso a desposar Marina, que se manifestasse. Não oporia embargos, no entanto, exigia franqueza.

30 Dona Márcia, repentinamente lisonjeada, ao colher-lhe as disposições tão favoráveis, arrolou as confidências da filha.

31 O rapaz confessara-se. Admirava-lhe não só os encantos pessoais, mas gabava-lhe a educação fina. De começo, apenas se cumprimentavam, de quando em quando. Ele, porém, tivera necessidade da cooperação de alguém que o auxiliasse na tradução de alguns textos franceses. Marina expusera a competência adquirida. O trabalho realizado erigia-se em característicos tão primorosos que obtivera louvor na Embaixada. Desde essa empresa, trabalhavam quase que unidos. Marina revelara-lhe que o próprio senhor Nemésio, sempre solícito, passara a nomeá-la por nora.

32 Cláudio, acintosamente, dizia, de quando em quando:

— Márcia, não estou ouvindo bem, fale um pouco mais alto.

33 A companheira, elevando sempre a modulação da voz, contou que os dois, embora a situação constrangedora da saúde de Dona Beatriz, no momento, traduziam poesias deliciosas de autores ingleses, marginando-as de trechos sentimentais que lhes expressavam a ternura recíproca, compondo lindo álbum cuja leitura lhe arrancara lágrimas de enternecimento. O amor entre ambos era claro como água. Indispensável apoiarem a filha, na concretização de suas esperanças. 34 Afirmava-se confortada em reconhecer, a tempo, que a cultura de Gilberto não se compadecia com as deficiências de Marita, para quem o moço não seria, por isso, um partido feliz. Asseverava, convicta, que competia a ele, Cláudio, e a ela a orientação do assunto. Ponderou ainda que o auxílio dispensado por Marina a Dona Beatriz estreitara as relações entre os jovens; e, supondo o esposo agastado à vista de contrariedades prováveis para a filha adotiva, acrescentou, entre desabrida e chistosa, que Marita se arranjaria, na época oportuna. Inclinações de moças, problemas delas.

35 O marido não acreditou em tópico nenhum do que ouvira. Pai, desiludira-se com a filha. As investidas noturnas pelos recantos boêmios, as maneiras inconfessáveis, no trato com o chefe de serviço, não lhe deixavam dúvidas. Ao revés, as notícias entusiásticas de Márcia acordavam-no para realidades mais agressivas. Inferia que Marina andava sem escrúpulos entre o velho e o moço. De outro modo, na condição de esposo, não lograria embair-se. 36 A companheira figurava-se-lhe a mulher desleal aos compromissos domésticos, mulher que ele mesmo plasmara com os seus exemplos de homem refratário ao equilíbrio emotivo. Impossível queixar-se. Com a tarimba da sociedade menos digna, fizera-se Márcia astuciosa, cruel. Dissimulava para ganhar. Certamente, não lhe confiava quanto sabia. Estaria informada de todas as ligações escusas da filha com o senhor Torres, tanto quanto ele próprio. Capearia as inconveniências, incentivaria, talvez, a leviandade com propósitos de lucro; 37 entretanto, aquele era o momento de atrair a confiança de Marita e, à face dessa razão que se lhe alteava no ânimo empedernido, calou a revolta e partilhou a farsa, afiançando confiar na menina que amavam por filha. Tentaria distraí-la, renová-la, e, de acordo com ela, Márcia, procuraria incluí-la num roteiro de turismo a Buenos Aires, para o qual fora convidado por amigos, no banco. Marita esqueceria, esqueceria.

38 O entendimento avançava, mas o serviço nos convocou ao aposento próximo, onde a mágoa da jovem explodia, inarticulada, em vibrações de intensa dor.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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