Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Sexo e destino — André Luiz — F. C. Xavier / Waldo Vieira — 1ª Parte


Capítulo 8

(Sumário)

1. Rematara os apontamentos que me propunha alinhar, e, reconhecendo que a paciente chorava, em prostração, visivelmente distanciada do exame que me fora permitido desenvolver, Neves perguntou se podíamos trocar entendimento rápido.

— Como não?

2 — André, — inquiriu ele, sem ocultar a perplexidade, — que vem a ser isto, meu amigo? Você percebeu? Meu neto, o moço é meu neto!… Onde estamos? Quatro criaturas enoveladas… Mulher entre pai e filho, um rapaz entre duas irmãs… Ignorava o que vemos. Há dias, tento confortar minha pobre Beatriz, só isso. Não fazia a menor ideia das perturbações que a rodeiam… Ah! meu amigo, como pai, estaria agora mais consolado se a visse agonizando numa casa de loucos!…

3 E apontando Marita:

— Esta moça disse a verdade toda?

— Neves, — acentuei, — você não desconhece que determinado grupo familiar se define como sendo um engenho constituído de peças diferentes, embora ajustadas entre si para a função que lhe cabe. Cada um daqueles que o integram é parte das realidades que se entrosam no conjunto. Marita foi sincera. Expôs o que sabe. Ela é um pedaço da verdade que procuramos. Para descobrir o que você conceitua por “verdade toda” é inevitável consultar as pessoas que ela hospeda no mundo íntimo.

4 O amigo debuxou o leve sorriso de quem reúne compreensão e conformidade.

Arrojando-se, porém, ao desconforto com que supunha reverenciar a justiça, lastimou-se, áspero:

— Imagine você! Gilberto! Um menino… Se o pai auxiliasse!… Mas Nemésio é um caso de manicômio. Não tem jeito…

5 Olhou, compadecido, para a moça em pranto e salientou:

— Veja esta menina. Correta, fiel… Submeteu-se, confiante. Que culpa no vaso de porcelana, violentamente destampado por um animal? E esse animal é um garoto que eu amo tanto!… Ela poderia ser a esposa que idealiza, mãe digna, dona de casa para um homem de bem… No entanto, lá se vai Gilberto, embeiçado por uma pinoia. Marina e Marita… Incrível hajam crescido sob o mesmo teto! São irmãs adotivas, como acontece à serpente e à pomba…

6 Diante da pausa curta, não me fiz tardio nas ponderações.

Investi-me, indebitamente, na posição de conselheiro fortuito e roguei ao companheiro asserenar-se.

Achávamo-nos ali para emendar, proteger, realizar o melhor. Certo, o bem suscetível de ser plantado, naquele grupo, redundaria em socorro a Beatriz. Colocássemos nela o pensamento. A irritação lhe avinagraria o ânimo e ele, Neves, de sentimento azedado, lançaria sobre a filha ingredientes fluídicos de índole negativa, arruinando-lhe as forças.

Paciência e atividade fraterna servir-nos-iam de apoio.

7 Além do mais, não conseguiríamos precisar até quando perdurariam os sofrimentos físicos da esposa de Nemésio. É justo prever, calcular. Entretanto, poderiam ocorrer determinações superiores, recomendando lhe fosse prolongado o prazo de estada na Terra. Nada impossível viesse a continuar adstrita ao corpo carnal, relativamente melhorada, por meses, anos talvez, conquanto os prognósticos enunciassem a desencarnação para breve. 8 Mas, e se acontecesse o inverso? Exasperação ou desânimo, de nosso lado, marcariam o término das possibilidades de cooperação. Os supervisores que nos dirigiam, não obstante compassivos e prestimosos, remover-nos-iam da cabeceira da doente, sem a menor dificuldade. Contavam com recursos para localizar-nos em tarefas, até mesmo mais suaves e mais reconfortantes, em outra parte, como quem nos agaloava em serviço. Agiriam, assim, em proveito da própria doente, impedindo os prejuízos que lhe pudéssemos acarretar com qualquer carga de vibrações desconcertantes.

9 Neves tolerou o aviso com paciência.

Acabou rogando compreensão. Retirara-se do convívio familiar, por longo tempo, — justificou-se, — a fim de adestrar-se em cordura e desprendimento. Regressando, no entanto, ao abrigo doméstico, topava, a cada instante, em si mesmo, o homem que fora. Comodista, agarrado às raízes consanguíneas, absorvido no bem-estar dos que reputava como sendo flores no tronco do coração. Sabia-se em prova árdua. Acusava-se analisado, esquadrinhado, sopesado, na própria assimilação dos princípios de caridade e indulgência que passara a ministrar, sob o influxo dos mentores sábios e amigos que lhe haviam descerrado a porta das escolas de aperfeiçoamento nas Esferas superiores.

10 Ao jeito de qualquer pessoa terrestre, encerrando consigo méritos e falhas, declarou-se disposto a dominar-se, e, impelindo-nos a recordar antigos condiscípulos da fase juvenil, quando encorajados e vacilantes ao mesmo tempo na solução dos problemas de autocontrole, solicitou-nos colaboração a fim de que se mantivesse calado, tanto quanto possível, na presença dos instrutores.

11 A submissão do companheiro dava para comover.

Acreditava-se temporariamente perturbado, acentuou humilde. Partilhava as agruras da filha. Voltara instintivamente à agressividade e à extroversão que lhe marcavam o temperamento no passado; entretanto, comprometia-se à revisão de atitudes. Apesar disso, que lhe relevássemos qualquer desabafo inconveniente, quando nos demorássemos a sós. Sempre chegava o momento em que ele, por mais aplicado ao burilamento íntimo, sentia que as excitações, longamente acumuladas, lhe pesavam no espírito, qual nuvem de gases comburentes. Desinibia-se ou dementava-se, ao modo de alguém que carregasse bombas estourando no próprio peito.

12 Fi-lo sossegar-se. Não precisava vexar-se daquela maneira. Entendia tudo, perfeitamente. De nossa parte, não apresentávamos qualquer traço de superioridade. Também nós, criatura humana desencarnada, conhecíamos de sobra os lances da batalha interior, em que o adversário somos sempre nós mesmos, na arena das qualidades inferiores que nos tocam sublimar.

Desaconselhável, porém, prosseguir, conversando à margem do serviço.


2. A frágil menina desoprimia-se, em pranto. Choro vozeado, não obstante discreto. Soluços.

Dispúnhamo-nos a intervir, quando sucedeu o inesperado.

2 Cláudio batia, de leve, à porta, decerto incomodado pelo som lastimoso daqueles gemidos que Marita, em vão, buscava reprimir.

Respiramos confortados.

3 Indubitavelmente, o inquieto coração paternal vinha ao encontro da moça desfalecente, ansiando soerguer-lhe as energias, e, nós próprios, através de estímulos magnéticos, insistimos com ela para que atendesse.

Empregando vontade e forças para vencer a crise de lágrimas, a jovem anuiu aos nossos apelos e cambaleou, desaferrolhando a passagem.

4 Cláudio entrou, mas não vinha só. Um daqueles dois companheiros desencarnados que lhe alteravam a personalidade, justamente o que se abeirara dele, em primeiro lugar, para o trago de uísque, enrodilhava-se-lhe ao corpo.

5 O verbo enrodilhar-se, na  linguagem humana, figurava-se o mais adequado à definição daquela ocorrência de possessão partilhada, que se nos apresentava ao exame, conquanto não exprima, com exatidão, todo o processo de enrolamento fluídico, em que se imantavam. E afirmamos “possessão partilhada”, porque, efetivamente, ali, um aspirava ardentemente aos objetivos desonestos do outro, completando-se, euforicamente, na divisão da responsabilidade em quotas iguais.

6 Qual acontecera, no instante em que bebiam juntos, forneciam a impressão de dois seres num corpo só.

Em determinados momentos, o obsessor afastava-se do companheiro, a distância de centímetros; contudo, sempre a enlaçá-lo, copiando gestos de felino, interessado em não perder o contacto da vítima. Achavam-se, entretanto, irrestritamente conjugados em vinculação recíproca.

7 Isso conferia ao semblante de Cláudio expressão diferente. O hipnotizador, cuja visão espiritual não nos atingia, senhoreava-lhe sentimentos e ideias, enquanto ele se deixava prazerosamente senhorear. O olhar obediente adquirira a turvação característica dos alucinados. O recém-chegado transfigurara-se. Estranho sorriso franzia-lhe a boca. Diante das percepções limitadas de Marita, era ele um homem comum; no entanto, à nossa frente, valia por duas personalidades masculinas numa só representação. Dois Espíritos exteriorizando impulsos aviltados complementando paixões idênticas na mesma tônica da afinidade total.

8 Neves fitou-me, espantado. Mas não era só ele, menos experiente, que jazia transido, amarrotado. Nós também, acostumados, no Plano espiritual, aos embates do sentimento, alimentávamos aflitivas apreensões.

9 Aquele quarto, dantes povoado pelos devaneios doridos de uma criança, metamorfoseara-se em jaula, onde Cláudio e o vampirizador, singularmente brutalizados pelo desejo infeliz, constituíam juntos uma fera astuciosa, calculando o caminho mais fácil de alcançar a presa.

10 Um clarividente reencarnado que contemplasse o dono da casa, naquela hora, vê-lo-ia, noutra máscara fisionômica.

11 A incorporação medianímica, espontânea e consciente, positivava-se em plenitude selvagem. O fenômeno da comunhão entre duas inteligências, — uma delas, encarnada, e a outra, desencarnada, — levantava-se, franco; ainda assim, desdobrava-se tão agreste quanto o furacão ou a maré, que se expressam por forças ainda desgovernadas da Natureza terrestre, não obstante a ocorrência, do ponto de vista humano, efetivar-se na suposta mudez do Plano mental.

12 Para nós, porém, não se instituíam apenas as formas-pensamentos, dando conta das intenções libertinas da dupla animalizada, com estruturas, cores, ruídos e movimentos correlatos; amedrontava-nos igualmente escutar as vozes de ambos, em diálogo, claramente perceptível.


3. As palavras escapavam do crânio de Cláudio, aparentemente silencioso para a filha adotiva, qual se a cabeça dele estivesse transfigurada numa caixa acústica de aparelho radiofônico.

2 Magnetizador e magnetizado denotavam sensualidade do mesmo nível.

3 Refletindo na corrida à garrafa, momentos antes, avaliávamos o perigo aberto à menina indefesa. A diferença, ali, é que Cláudio ainda encontrava recursos a fim de parlamentar, dentro da hipnose — hipnose que ele, aliás, amimalhava.

4 Discorria o obsessor, comovendo-o, no intuito patente de arruinar-lhe os restos do escrúpulo, através da emoção:

— Agora, agora sim!… O amor, Cláudio, é isto… Esperar, por vezes, anos a fio, para dominar a felicidade num simples minuto. 5 Existem mulheres aos milhões; entretanto, esta é a única. A única que nos poderá, enfim, aplacar a sede. 6 Pontos de apoio alongam-se em toda parte, mas o pássaro viaja, léguas e léguas, suspirando por descansar na penugem do próprio ninho… 7 Na fome física, todo alimento serve, mas no amor… No amor, a felicidade é semelhante ao aro de que o homem possui a metade e a mulher detém a outra. Para que a euforia vibre perfeita no círculo, é imperioso que as metades sejam da mesma substância. Ninguém alcança a fusão de um pedaço de ouro com um pedaço de madeira. 8 Paganini tocou numa corda só; entretanto, a corda se harmonizava com ele. Jamais arrancaria no mundo o menor sinal do próprio gênio, se apenas dispusesse para o violino das cordas de cânhamo, ainda mesmo que essas cordas o desafiassem a toneladas. 9 Cada homem, Cláudio, para realizar-se nos domínios da vitalidade e da alegria, há de encontrar a mulher magnética que lhe corresponde, companheira na afinidade absoluta, capaz de lhe oferecer a plenitude interior, que transcenda convenções e formas… n

10 Pausava-se a voz, por segundos, para continuar, suplicante, proclamando sofismas arguciosos:

— Vamos! Marita é nossa, nossa!… Somos homens sequiosos, sofredores… Apiedamo-nos de enfermos abandonados, administrando-lhes remédio seguro; somos o apoio certo de mendigos que tropeçam às tontas… Acaso, mereceremos simpatia menor? Os que enlouquecem, esfaimados de ternura, serão piores do que os infelizes, a se estirarem na rua por falta de pão? 11 Você, Cláudio, tem amargado angustiosa carência. Um pedinte na praça não tem leve pitada de suas aflições. De que valem vencimentos fartos e experiências de lupanar, quando o amor verdadeiro grita insatisfeito na carne? Você vive no lar, à moda de cão na sarjeta. Escoiceado, ferido… Marita é a compensação. 12 O cultivador, porventura, não tem direito ao fruto que amadurece? Você abrigou esta menina nos braços, embalou-a no peito; viu-lhe o crescimento, como quem acompanha a evolução da flor que desabrocha, e acabou descobrindo nela o seu tipo. Não estará você cansado de vê-la e desejá-la, ardentemente, todos os dias, resignando-se ao suplício da distância, vivendo tão perto?

13 — Criei-a, no entanto, como sendo minha própria filha… — Suspirou Cláudio, crendo falar para si mesmo.

— Filha? — insistiu o sedutor. — Mero artifício social. Apenas mulher. E quem assegurará que ela também não espera por seu beijo com a sede da corça, presa ao pé da fonte? Você não é nenhum neófito; sabe que toda mulher estima render-se, em trabalhosa porfia.

14 Conjeturando-se dividido mentalmente em duas personalidades distintas, a de pai e a de enamorado, Cláudio argumentou, desencorajando-se.

15 Não desconhecia que a moça já se revelara. Elegera Gilberto, o rapaz com quem se dava a passeios frequentes. Era impossível que o amasse, a ele, Cláudio, em segredo. Não alentava dúvidas. Ciumento, acompanhara-os, discretamente, em excursões domingueiras, sem que lhe desconfiassem da presença ou do zelo ofendido. Nunca lhes ouvira as palavras; entretanto, apanhara-lhes, às ocultas, os gestos equívocos. Admitia-se com razão para convidar o estouvado a compromisso. Calculara, calculara. 16 Todavia, quando se inclinava a pedir conselho de autoridades policiais, chocara-se com o imprevisto. Homem de prolongada vida noturna, passou a esbarrar com a filha [Marina], em recantos de prazer, não apenas na companhia de Nemésio Torres, o cavalheiro que desempenhava, junto dela, a função de chefe, mas igualmente com Gilberto, o filho, em posição comprometedora. 17 Os desregramentos de Marina, desde muito, se haviam tornado para ele em calamidades inevitáveis. A princípio, atormentara-se. Pai contundido pela licenciosidade em família. Contudo, Márcia, a esposa, ditava os figurinos. 18 Nos primeiros tempos do consórcio, emergira entre ambos a muralha da discórdia, da discórdia que lhes emanava do âmago, em ondas torvelinhantes de aversão instintiva, cuja existência não haviam sequer pressentido, de leve, antes do casamento.

19 De começo, rixas e discussões. Depois, a indiferença, o cansaço total um do outro. Aventuras unilaterais. Cada qual em seu caminho.

20 Marina, evidentemente, seguira a trilha materna. Desligara-se dele. Classificava a filha, em seu juízo de homem, por mulher livre; contudo, tolerável no lar, enquanto exercesse a profissão que lhe assegurava sustento às fantasias. Em casa, habitualmente reuniam-se à mesa, a esposa, Marina e ele, à feição de três animais inteligentes, dissimulando o desprezo recíproco, através da convenção ou do chiste.

21 No conceito dele, porém, Marita definia-se à parte. Flor no ramo espinhoso daqueles antagonismos flagelantes.

Afastara-a, intencionalmente, na direção do serviço. Inventara meios de obrigá-la a tomar refeições em Copacabana, para que as picuinhas do círculo doméstico, no Flamengo, não lhe torturassem o espírito.

22 Espiava-lhe os passos, ouvia-lhe os chefes.

Uma vez instalada no exercício da nova condição, ele mesmo, quanto possível, manter-lhe-ia a independência.

Amando-a com entranhado carinho mesclado de egoísmo tirânico, feriam-lhe as humilhações que a esposa e a filha não regateavam a ela, no trato mais íntimo.

23 Queria-a para ele, com a ternura de um pombo e com a brutalidade de um lobo. Não concordava lhe dessem a beber afronta ou sarcasmo. Tais atitudes acabaram revestindo-a de liberdade mais ampla, que Marita utilizava no culto afetivo a Gilberto, de vez que, por vocação, se distanciava de festas. 24 Márcia e Marina, sempre mais absorvidas nas extravagâncias em que se inculcavam por duas irmãs doidivanas, nem deram por isso. A ausência dela como que as aliviava de um peso. Certificando-se de que não lhe dobrariam o caráter, acusavam-se felizes por não serem induzidas a suportar-lhe a fiscalização.

25 Embrenhado nos raciocínios que lhe derivavam, rápidos, do ligeiro autoexame, sob o controle do vampirizador que o influenciava, recordava-se Cláudio de que há muitos dias concluíra que Gilberto não hesitava embair as duas moças, e, depois de refletir maduramente, resolvera silenciar.

26 Não seria conveniente sopesar as próprias vantagens? Denunciar Marita por jovem ultrajada redundaria em arredar-lhe a confiança. Apontar Marina no páreo significava insultar a filha adotiva, aplicando-lhe temíveis lesões de ordem moral. Ardiloso, deixava o tempo correr, achando preferível, a seu ver, fosse Marita machucada pelas circunstâncias. Quando se voltasse para ele, fatigada e desiludida, convertê-la-ia, talvez sem dificuldade, na amante a que aspirava.

27 Engodado pelo interlocutor que lhe era invisível, enfileirou as reflexões apressadas que lhe vinham à mente; no entanto, assoprado agora por ele, deixava-se iludir por imaginosa expectativa, formulando-se outra espécie de inquirições. Envolvido nas sutilezas do obsessor, esmerilhava o próprio íntimo, tentando saber se estava sendo inspirado com segurança naquela hora. 28 Andaria enganado? Acaso, Marita entregar-se-ia a Gilberto, pensando nele, Cláudio, de quem se afastava por escrúpulos de consciência? Semanas havia, fizera-se a jovem mais esquiva. Estranhara. Dar-se-ia o fato de recolher-lhe telepaticamente as apreensões ou deliberara fugir-lhe, de propósito, a fim de ocultar a simpatia amorosa que, possivelmente, lhe impelia o coração de mulher a querê-lo?

29 Ele mesmo fornecia ao perseguidor a argumentação com que se lhe arruinava a resistência.

Até ali, trancara, bem ou mal, diante da jovem, os sentimentos que lhe transbordavam do peito. Não chegara, porém, aos limites do enigma? Caber-lhe-ia sofrear-se até à loucura?

30 O hipnotizador, em cujo semblante se podia ler a desmesurada sede de volúpia, sorriu, satisfeito, e sussurrou, mentalmente, ganhando preponderância:

— Cláudio, compreenda. Iniciativa, em assunto de amor, não é passo feminino. Velho rifão: “laranja à beira de estrada não tem preço”. Disse um filósofo: “prazer sem conquista é bife sem sal”. Adiante, adiante!

31 Esquadrinhando o imo do companheiro, à caça de recursos com que o próprio Cláudio lhe pudesse fortificar a posse magnética, o obsessor, por segundos, cravou nele o olhar penetrante. E, decerto, exumando-lhe as desrespeitosas ilusões em matéria de ligação afetiva, que ele, Cláudio, embutira na cabeça, desde menino, começou a martelar:

32 — Cigarro! Lembre-se do cigarro e da boca! Marita é mulher igual às outras… Cigarro, cigarro na vitrina… Cigarro, cigarreira, piteira e charuto não escolhem comprador… A carne é flor desabrochada na terra do espírito, só isso. O cultivador não sabe o que seja a formação essencial do canteiro, tanto quanto desconhece o que está no fundo da planta. 33 Proclamava Salomão que “tudo é vaidade”; ( † ) acrescentamos que tudo é ignorância. Entretanto, na superfície das situações e das coisas, é possível enxergar claramente. Flor que ninguém colhe é perfume que se perde. Hora de amor desaproveitada vem a ser pétala no estrume. Rosa murcha, adorno para o chão. Carne sem viço, adubo para a erva. Aproveite, aproveite…

34 Percebíamos que o desencarnado não era simples dipsomaníaco, que o álcool apenas lhe constituía porta de escape, de vez que as palavras que selecionava para aliciar influência e o jeito astucioso de sensibilizar o parceiro, antes de empalmar-lhe o raciocínio, demonstravam técnicas de exploradores consumados das paixões humanas.

35 Aquele perseguidor não era vagabundo acidental.

O anseio incontido com que impelia Cláudio para a jovem e a expressão com que a fitava, apaixonadamente, pareciam chegar de muito longe. Mas a ocasião não comportava investigações de retaguarda. O momento reclamava atenção. Necessário contornar obstáculos, improvisar medidas socorristas que protegessem a triste menina desarmada.

36 O excêntrico dueto prosseguiu entre os dois amigos que se entendiam, sem o concurso da boca.

O magnetizador pressionava, o magnetizado resistia.

37 Por fim, Cláudio avançou dois passos, quase vencido.

Ideias, contradições, estímulos e arrebatamentos abalroavam-se-lhe, violentamente, no espaço estreito do crânio. A terrível batalha interior de alguns instantes esmorecia. A natureza animal ampliara domínio. O sedutor desencarnado rematava a obra.

38 Não mais a gritaria de Espírito. Não mais o entrechoque das mudas ponderações entrecortadas a esmo.

Sim, — deduzia, transtornado, — ele era homem, homem… Marita, incontestavelmente mais jovem, não passava de mulher. Não lhe cabia, portanto, diminuir-se. Ela chorava, ele podia acalentá-la, aquecer-lhe o coração.

39 Alucinado de lascívia, envolveu-a em longo olhar, inferindo que, não fossem o temor de vê-la fugir em definitivo e o receio de verificar-se por ela própria desonrado, tomar-lhe-ia o colo entre os braços, qual guri destemeroso, buscando desentranhar-lhe a ternura.

40 Entanto, os derradeiros arrazoados esmaeciam. Esbarrondara-se, dentro dele, a última trincheira que lhe cerceava os impulsos. Sujeitou-se de todo à direção do vampirizador que o comandava. Colaram-se, fundiram-se, enfim.


4. Marita ergueu para ele os olhos súplices, imitando as atitudes da ave perseguida, para quem não resta outra alternativa que não seja esperar pela piedade do atirador.

2 Jungido ao companheiro infeliz, Cláudio adiantou-se, acomodando-se, assumindo ares de protetor, resolvido a ultrapassar os limites da afeição pura e simples.

— Pelo que vejo, esse pilantra do Gilberto vem abusando… — Sussurrou, adocicando a voz.

Em seguida, tomou-lhe a destra pequena entre as suas mãos nervosas, mal disfarçando a lubricidade duplicada que o possuía.

3 A jovem registou o impacto das forças aviltadas a lhe requisitarem adesão, calando a repulsa. Escutara o apontamento, num misto de estranheza e revolta, mas, reprimindo-se, passou a responder, esforçando-se por desculpar o rapaz e atribuindo a si o desmantelo emotivo; entretanto, à medida que o pai adotivo dilatava a liberdade das atitudes, apagava-se-lhe a energia para a conversação, até que silenciou, como se o interesse, ao redor do problema, houvesse desaparecido de chofre. 4 E, num átimo, realinhou na mente as impressões amargas dos tempos últimos… Assinalara, havia meses, a reservada mudança do trato paterno. Desconcertava-se ao perceber que Cláudio demorava sobre ela o olhar insistente. Amedrontara-se. Reagira, porém, energicamente, contra si mesma. Consagrava-lhe o respeitoso amor de filha reconhecida e não lhe cabia conspurcar sentimentos sempre mantidos imáculos, desde a intimidade da infância. Opusera-se à suspeita. Lutara, não queria aceitar-se visada por ele, sob a inspiração de qualquer propósito menos digno.

5 Ainda assim, por mais brandisse argumentos contra si própria, inexplicável sensação advertia-lhe o espírito, exortando-a a policiar as maneiras com que Cláudio agora a cercava. Pelos motivos mais fúteis, exagerava cuidados, multiplicando frases de dúbio sentido.

Torturada pela dúvida, afirmava a sua desconfiança e desdizia-se, intimamente.

6 Naquele instante, porém, o instinto de defesa sentenciava prudência, segredava-lhe vigilância… Pressentindo, em espírito, a presença do “outro”, arregimentou, sem querer, todas as suas forças na posição de alarma.

O contacto de Cláudio comunicava-lhe insegurança.

Batia-lhe o coração desritmado, ao senti-lo ensaiando meios de enlaçar-se a ela, ávido de carinho.

7 — Não negue, filha, — entaramelou-se o pai, um tanto trêmulo, — não desejo contrariá-la, mas venho analisando, analisando… Você não nasceu para esse meninão caprichoso. Compreendo você… Não sou apenas seu pai pelo coração, sou também seu amigo… Esse rapaz…

8 Marita cobrou ânimo e, antecipando-se-lhe às ilações reticenciosas, explicou ingenuamente que amava a Gilberto, que lhe hipotecava confiança, que o pai estivesse tranquilo, e acentuou, sorrindo quase, que as lágrimas daqueles minutos não se reportavam a qualquer desgosto e sim a indisposição orgânica indefinível. Deduziu, de relance, que seria justo desvelar-lhe mais ampla zona da alma, anulando mal-entendidos no nascedouro, e, intencionalmente, prosseguiu confidenciando, a expor-lhe, com lealdade, a expectativa com que aguardava o anel esponsalício, determinada a medir as reações de Cláudio, a fim de orientar, sem tergiversações, a própria conduta.

9 Atrapalhava-se, todavia, ao consignar-lhe a indignação pintada no rosto. Na meia-luz do quarto, podia ver-lhe a face congesta, nos esgares da ira.

Compreendeu que a borrasca naquele espírito voluntarioso se mostrava prestes a estalar; no entanto, continuou apresentando razões para colher reações.

10 E a explosão do interlocutor não se fez demorar.

Cerrando os punhos, Cláudio cortou-lhe a conversa, exclamando, irritado:

— Percebo, percebo, mas não precisa maçar-me… Estimo, porém, que você me conheça melhor o devotamento.

11 Avançando na intimidade, qual se aspirasse a enredá-la no próprio hálito, continuou, — agindo por si e pelo  “outro”, — na queixa primorosamente lavrada:

— Filha, é necessário que você me ouça, que me entenda…

12 E, assaltando-lhe a emotividade para esbater-lhe a resistência:

— Você não desconhece o que sofro. Imagine a tragédia de um homem que morre, a pouco e pouco, desolado, sozinho… De um homem que dá tudo, sem nada receber… Você cresceu, vendo isso… Infelicidade, solidão. É impossível que não se condoa. Esta casa é meu deserto. Chego esfalfado, diariamente, sem achar mão amiga. Márcia, embora quarentona, vive de jogatinas e festas… Você está moça, inexperiente, mas deve saber. Desculpe-me o desabafo, mas os próprios amigos me lastimam o drama… Estará você em condições de avaliar os conflitos de um pobre diabo algemado a companheira de vida irregular? Ela, porém, não me fere com isso. No começo, o corte sangrava, mas coração calejado não sente. Habituei-me a detestá-la. Dar-lhe o dinheiro que exige, para que suma depressa, é hoje o que me consola… Por outro lado, Marina, cujo afeto poderia proporcionar-me algum reconforto, faz empenho de humilhar-me com a própria devassidão! Sou um homem falido. Dias surgem, nos quais me reconheço o palhaço mais desditoso da Terra…

13 Nesse ponto, sob o governo do obsessor, a voz de Cláudio entravara-se na garganta.

Alterara-se de todo, comovido na aparência. Com isso, amolgara-se a jovem, sinceramente compadecida, e, concluindo que atingira o alvo a que se propunha, acrescentou, exaltado:

— Só você, somente você me prende ao lar infeliz. Ainda agora, o Banco me propôs excelente comissão em Mato Grosso; entretanto, pensei em você e desisti… Por você, filha, tolero os insultos de Márcia, as ingratidões de Marina, os dissabores da profissão, os aborrecimentos cotidianos. Conseguirá você compreender-me?

14 A moça suspirou, diligenciando expulsar de si as vibrações de sensualidade com que a “dupla” lhe envolvia a cabeça, e falou, calma:

— Sim, papai, entendo as dificuldades que são nossas…

— Nossas! — Repetiu ele, ganhando novas energias para chegar à meta, — sim, minha filha, as dificuldades são nossas, mas é preciso que você saiba que nossas também devem ser as esperanças e as alegrias. Anseio pelo instante em que você me veja não exclusivamente por pai…

15 Atentando no olhar da infortunada menina que se tocara de imenso espanto, acentuou num supremo esforço por revelar-se:

— Marita, pareço um velho, mas você me faz jovem… O coração é seu, seu…

16 O obsessor, com trejeitos de lascívia, prelibava o lance final.

Marita, no entanto, percebendo a intenção inequívoca do homem apaixonado, que arrojava o rosto maduro e bem tratado sobre o dela, intentou recuar.

— Não, não! — Gemeu, suplicante, ao sentir-lhe o hálito.

17 Cláudio, porém, cujas forças jaziam somadas à valentia do “outro”, enlaçava-lhe o busto, copiando o procedimento de um jovem mal comportado.

18 Qual se houvéramos combinado previamente a defesa. Neves e eu saltamos na direção dela, ofertando-lhe as mãos, para que pudesse arrancar-se, e a vítima, crendo apoiar-se nos próprios recursos, conseguiu levantar-se num prodígio de ligeireza, estacando, à frente dele, que a fitava, agora, com a expressão desconfiada de um animal repentinamente ferido.

— Papai, não me faça mais infeliz… Poupe-me a humilhação!…


5. O dono da casa, ao impacto da recusa imprevista, pareceu desligar-se do amigo desencarnado, lembrando a fera que se desvencilhasse, de inopino, do encantamento mantido pelo domador; entretanto, o parceiro trazia uma carga de paixão vigorosa demais para desistir facilmente. Retomou, impetuoso, o próprio domínio, a ponto de antepor a máscara fisionômica ao semblante de Cláudio. Cerrava os punhos, despedia cólera letal. Estabelecia-se pavoroso conflito na mente de cada um. Num deles, o desapontamento e o desespero, no outro, a malignidade e a agressão.

2 O pai adotivo, carregando o estranho fardo de angústia, mesclada de revolta, incapaz de compreender os sentimentos contraditórios que o faziam avizinhar-se da loucura, passou a clamar, inconsiderado:

— Isto é a explosão de muitos sofrimentos acumulados. Fiz tudo para esquecer e não pude… Que fazer com esta inclinação que me arrasta? Sou palha no vento, minha filha! Desde que a vi menina, carrego esta ideia fixa… 3 Se eu fosse religioso, diria que um demônio mora dentro de mim. Um demônio que me atira constantemente sobre você. Em sua presença, quero pensar em você, como sendo minha filha, crescida em meus braços e não posso… Li muitos livros de Ciência para saber o que se passa, mas o enigma continua. Quis procurar um médico; entretanto, senti vergonha de mim próprio… É só você que eu vejo em tudo? Odeio Márcia, desprezo Marina… Tenho acalentado a esperança de uma viuvez que nunca chega, a fim de oferecer-me a você, sem condições… Tenho ciúmes, ciúmes que me afogam a alma em labaredas… Detesto esse rapaz leviano, inconsciente…

4 A voz de Cláudio amaciara-se, adquirindo tom lacrimoso. Identificava-se-lhe o abalo sentimental. O perseguidor duplicou em desprezo tudo o que ele exprimia em emotividade, provocando inesperada reviravolta. O pai enternecido deu lugar ao enamorado violento. Avinagrara-se a ternura, semelhando calda azedada. Revelando súbito transtorno, deitou à filha adotiva um olhar de escárnio, traumatizando-a de horror, a esbravejar, dementado:

5 — Não, não posso humilhar-me assim. Você sabe que não sou nenhum tonto. Há quinze dias, acompanhei vocês dois a Paquetá, sem que me vissem… Segui-lhes o passo descuidado e feliz, como se eu fosse um cão escoiceado pelo destino… Ao cair da noite, vi quando vocês dois se enlaçaram, trocando promessas e falando bobagens, na Ribeira… Arrastei-me no matagal e vi tudo… Desde então, enlouqueci… Pelo jeito, vocês andam acanalhados, há muito tempo… Você! você, que eu supunha intangível, entregue a um menino doido!… Ingênua! Julga que não tenho motivos para expulsá-la! Você imagina que me falta coragem para chamar às contas esse “filho de papai rico”?

6 Alterando o tratamento paternal de que se valia, rugiu, brutalizado:

— Marita, fique sabendo que você agora não é mais criança! Você é apenas mulher, não passa de mulher, mulher…

7 A jovem soluçava. Reconhecendo-se descoberta nas mais íntimas nuanças da conduta impensada, não ousava erguer a fronte.

Neves, incapaz de remover o próprio assombro, abeirou-se de mim, rezingando :

— Você está vendo? Este homem será louco ou desbriado?


6. Temendo-lhe a impulsividade, fi-lo recordar as atitudes ponderosas e cristãs do irmão Félix, informando, discretamente, que me achava em oração, a exorar o auxílio da Esfera superior, porquanto, ali, não dispúnhamos de maiores recursos para impedir um assalto passional de penosas consequências.

2 — Oração? — Chasqueou o companheiro, positivamente desencantado. — Não creio que os anjos se ocupem de casos como este. Aqui, meu amigo, e em outros lugares onde tenho visto muito bicho velho fantasiado de gente, só a polícia…

3 Efetivamente, os anjos pessoalmente não nos atenderam às rogativas silenciosas, enunciadas desde o início da cena desagradável; no entanto, o socorro apareceu.

Ouviu-se barulho de ferrolho em ação e alguém penetrou em casa, ruidosamente.

4 Sobreveio o choque providencial.

Cláudio, em sobressalto, desligou-se do hipnotizador, que se lhe postou de lado, um tanto desenxabido…

Marita cobrou energias, regressando ao leito, enquanto o chefe do lar se recompunha à pressa.

5 Espantados, notamos, porém, a surpreendente capacidade de fabulação da qual Nogueira dava mostras. Ele próprio, sem qualquer ingerência do obsessor, começou a tramar em pensamento a desculpa com que se justificaria.

6 Agindo quase que mecanicamente, libertou a porta que havia prendido, perspicaz, abriu janela próxima e, de imediato, esbelta senhora surgiu, indagando, apreensiva:

— Que é que há?

— Tratava-se da esposa que voltara, de imprevisto.

7 Dona Márcia alegava susto, asseverando ter ouvido um vozeirão ao chegar. Cláudio, no entanto, repondo a máscara das conveniências, entornou pela boca a versão que inventara, ali, naquele momento, diante de nós.

8 Fixou a moça, de modo significativo, e tranquilizou a senhora, dizendo-lhe, com a maior sem-cerimônia, que chegara a casa, momentos antes, encontrando o gás do fogão a volatilizar-se. Fechara as saídas que a cozinheira deixara abertas e exortou a que se lhe chamasse a atenção, no dia seguinte. Dona Justa, a companheira do serviço doméstico, devia examinar os aparelhos da casa, minuciosamente, antes de se retirar. Acentuou que, atemorizado, descerrara as janelas, arejando o ambiente. Quando envergava o pijama, aduziu com absoluta seriedade a lhe transparecer do semblante, ouvira gemidos agoniados. Correu ao aposento das meninas, surpreendendo Marita a gritar, inconsciente. Sonâmbula, sonâmbula como sempre… Acordara-a, atarantado, averiguando, porém, que tudo estava em ordem.

9 A jovem, mergulhada na penumbra, cobriu o rosto com o lenço para ocultar as lágrimas, abandonando-se à inércia, como se transferisse a cabeça de um sono para outro.

A recém-chegada riu-se, sem suspeitar, de leve, do vulcão que faceava, e, qual se desejasse compensar-lhe a indiferença, Cláudio, de volta ao salão, esboçou um aceno gentil, convidando Márcia a descansar.


André Luiz



[1] Compreendemos o caráter negativo da linguagem do Espírito desencarnado, quando em deploráveis condições de ignorância, mas acreditamos seja nossa obrigação consigná-la, nestas páginas, ainda mesmo esbatida qual se encontra, prevenindo criaturas sensíveis e afetuosas, que, às vezes, abdicam impensadamente do próprio raciocínio, arrojando-se em profundo sofrimento moral, em nome do coração. — (Nota do Autor espiritual.)



Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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