Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Sexo e destino — André Luiz — F. C. Xavier / Waldo Vieira — 1ª Parte


Capítulo 2

(Sumário)

1. Repousava Dona Beatriz no leito bem-posto patenteando enorme cansaço.

2 A doença, decerto, consumia-lhe a forma física desde muito, porquanto aos quarenta e sete anos de idade mostrava o rosto singularmente engelhado e o corpo leve.

3 Refletia, ensimesmada, tristonha… Fácil de se lhe ver a preocupação, ante a crise iminente. Ideias a lhe fluírem, vivas e nobres, indicavam que se habituara à certeza da desencarnação próxima. Notava-se-lhe fixada no pensamento a convicção do viajante que atingira o término de espinhosa trilha, da qual, por fim, lhe competia sair.

4 Conquanto tranquila, inquietava-se pelos vínculos que a prendiam no mundo. Apesar disso, visualizava as portas do Além, plasmando formosos quadros íntimos, como quem sonha à luz da vigília e recordava Neves, o pai que perdera na infância, qual se visse prestes a recuperá-lo, em definitivo, tal a extensão do amor que os acolchetava um ao outro.

5 Observávamos, porém, sem dificuldade, que a alma afetuosa da enferma se dividia mais fortemente, na Terra, entre o esposo e o filho, dos quais se reconhecia em gradativo processo de inevitável separação.

6 No aposento acolhedor, que alguns adereços ataviavam, tudo transparecia limpeza, reconforto, assistência, carinho…

7 Ante o leito, encontramos sisudo enfermeiro desencarnado que Neves abraçou, demonstrando guardá-lo à conta de imensa estima.

8 E apresentou-nos:

— Amaro, temos aqui André Luiz, amigo e médico que, doravante, nos partilhará os serviços.

Saudamo-nos cordialmente.

9 Neves inquiriu, atencioso:

— O irmão Félix veio hoje?

— Sim, como sempre.

10 Informei-me, então, de que o irmão Félix, desde muitos anos, era o superintendente de importante casa socorrista, ligada ao Ministério da Regeneração, em Nosso Lar. n 11 Famoso pela bondade e paciência, era conhecido como sendo um apóstolo da abnegação e do bom-senso.

Não dispúnhamos, entretanto, de qualquer tempo para considerações pessoais.

12 Dona Beatriz experimentava dores agudas e o companheiro mostrou o propósito de aliviá-la, através do passe confortativo, enquanto a senhora se via aparentemente a sós. Em grande prostração física, revelava profunda sensibilidade mediúnica.

13 Oh! Os sublimes pensamentos do leito de dor!… De olhos cerrados, a doente, embora não assinalasse a presença paterna, lembrava a ternura do genitor, que lhe parecia distante e inacessível no tempo. Identificava-se, de novo, com a ingenuidade infantil… Na acústica da memória, ouvia as canções do lar, voltava, encantada, às horas da meninice… Reconstituindo na imaginação as relíquias do berço, sentia-se no regaço paternal, à maneira da ave de regresso à penugem do ninho!

14 Dona Beatriz chorava. Lágrimas de enternecimento inexprimível perolavam-lhe a face. E sem que a boca enunciasse o menor movimento, clamava intimamente com toda a alma: “pai, meu pai!…”

15 Meditai, vós que, no mundo, admitis para os desencarnados a indiferença da cinza! Para lá dos túmulos, amor e saudade muitas vezes se transformam, no vaso do coração, em pranto comburente!

16 Neves cambaleou, agoniado… Enlacei-o, contudo, a pedir-lhe coragem. A ventania da angústia, porém, sobre o ânimo do companheiro atribulado, perdurou apenas alguns momentos. 17 Refeito, a recompor o semblante que o sofrimento transfigurara, espalmou a destra na fronte da filha e orou, suplicando o amparo da Bondade Divina.

18 Chispas de luz, quais minúsculas flamas azulíneas, evolavam-lhe do tórax, a se projetarem naquele corpo fatigado, revestindo-o de energias calmantes. Emocionado, observei que Dona Beatriz se acomodava a suave torpor.


2. E antes que pudesse enunciar qualquer impressão, uma jovem, figurando-se nas vinte primaveras da experiência física, entrou cautelosamente no quarto. Renteou conosco, sem perceber-nos, de leve, e tomou o pulso da enferma, verificando-lhe as condições.

2 A recém-chegada esboçou o gesto de quem reconhecia tudo em ordem. Encaminhou-se, logo após, na direção de pequenino armário próximo e, munindo-se dos recursos necessários, voltou à cabeceira da dona da casa, aplicando-lhe injeção anestesiante.

3 Dona Beatriz não mostrou a mínima reação, continuando a descansar, sem dormir.

4 O concurso magnético de minutos antes insensibilizara-lhe os centros nervosos.

5 Perfeitamente tranquila, a moça, na qual observávamos a posição da enfermeira improvisada, retirou-se para um dos ângulos do aposento, a largar-se em acolhedora poltrona de vime. Em seguida, descerrou um dos segmentos da janela quadripartida, atraindo a corrente de ar fresco que nos bafejou sem alarde.

6 Respirando à saciedade, a jovem, com grande surpresa para mim, acendeu um cigarro e passou a fumar distraidamente, dando a ideia de quem diligenciava fugir de si mesma.

7 Neves fitou-a, deitando-lhe significativo olhar em que se mesclavam piedade e revolta e, indicando-a, discreto, informou-me :

— Trata-se de Marina, contadora de meu genro, que se dedica ao comércio de imóveis… Agora, a pedido dele, desempenha funções de assistente…

8 Evidente sarcasmo transparecia-lhe da palavra reticenciosa.

— Imagine! — Voltou a dizer, — fumar aqui, numa câmara de dor, onde a morte está sendo esperada!…

9 Contemplei Marina, cujos olhos denotavam recôndita inquietude.

Manifestando ainda alguns laivos de respeitosa estima para com a nobre senhora estirada no leito, soprava, para além da janela, as baforadas cinzentas que lhe escapavam da boca.

10 Repartindo a própria atenção entre ela e Amaro, o nosso amigo da Esfera espiritual, Neves, conquanto mudo e constrangido, parecia querer falar à vontade e desinibir-se.

11 Tentei, porém, adquirir mais amplo conhecimento da posição .

Aproximei-me reverentemente da jovem, no propósito de saudá-la em silêncio e colher-lhe as vibrações mais íntimas; contudo, recuei assustado.

12 Estranhas formas-pensamentos, retratando-lhe os hábitos e anseios, em contradição com os nossos propósitos de socorrer a doente, fizeram-me para logo sentir que Marina se achava ali, a contragosto. A sua mente vagueava longe…

13 Quadros vivos de esfuziante agitação ressumavam-lhe na cabeça… De olhar parado, escutava, adentro de si própria, a música brejeira da noite festiva, que atravessara na véspera, e experimentava ainda na garganta a impressão do gim que sorvera, abundante.

14 Apesar de surgir-nos, superficialmente, à guisa de menina crescida, sob o turbilhão de névoa fumarenta, exibia telas mentais complexas, a lhe relampaguearem na aura imprecisa.

15 Trazido pelas circunstâncias a colaborar na solução de um processo assistencial, sem qualquer intuito menos digno, passei a estudar-lhe o comportamento isolado. 16 A Medicina terrestre, no futuro, para atender com eficácia, ao doente, examinar-lhe-á, com minúcias, a feição espiritual de todas as peças humanas que lhe articulam a equipe.

17 Respeitoso, iniciei os apontamentos de ampla anamnese psicológica.

18 Marina apresentou, a princípio, a figura de um homem amadurecido, cunhada por sua própria imaginação, a repetir-se-lhe, muitas vezes, acima da fronte.

19 Ela e ele, juntos… Percebia-se-lhes, de pronto, a intimidade, adivinhava-se-lhes o romance… Fisicamente, semelhavam pai e filha; entretanto, pelas atitudes sentimentais, não conseguiam disfarçar a estuante paixão um pelo outro. 20 Nos painéis sutis que surgiam e se desfaziam, alternadamente, mostravam-se ambos extasiados, ébrios de prazer, fosse aboletados no automóvel de luxo ou enlaçados na areia morna das praias, conchegados sob a proteção de arvoredo tranquilo ou sorridentes em tumultuados abrigos de encantamento noturno… Deslumbrantes paisagens de Copacabana ao Leblon desfilavam por admirável fundo pictórico.

21 A moça entrefechava as pálpebras para senhorear, com mais segurança, as reminiscências que lhe empolgavam os sentidos, para, logo após, mentalizar, surpreendentemente, outro homem, tão jovem quanto ela mesma, evidenciando-se-nos entregue às cenas de um filme interior, diferente… 22 Formava novo tipo de palco para exibir a lembrança das próprias aventuras, no qual se destacava igualmente ao pé do rapaz, como se estivesse afeiçoada aos mesmos sítios, desfrutando companhias diversas… Ela e ele também juntos, no mesmo carro entrevisto ou na condição de pedestres felizes, saboreando refrescos ou repousando em animados entendimentos nos jardins públicos, sugerindo o encontro de crianças enamoradas, a entretecerem aspirações e sonhos…

23 Naqueles rápidos minutos de fixação espiritual, em que se exteriorizava tal qual era, Marina revelava a personalidade dúplice da mulher dividida entre o carinho de dois homens, jugulada por pensamentos de medo e inquietude, ansiedade e arrependimento.

24 Neves, que de algum modo me partilhava a inspeção, quebrou a calma reinante, enunciando, abatido:

— Está vendo? Julga que é fácil para mim, pai da doente, suportar aqui semelhante criatura?

25 Tratei de consolá-lo e, por solicitação dele próprio, passamos a pequeno salão de leitura, contíguo ao aposento da enferma, a fim de que pudéssemos refletir e conversar.


André Luiz



[1] Organizações no Plano dos Espíritos. — Nota do Autor Espiritual. [Nota: André Luiz denominou “Organizações” tanto à instituição dirigida pelo Irmão Félix, o “Almas Irmãs”, ligada ao Ministério da Regeneração de “Nosso lar”, quanto ao próprio Ministério da cidade-estado, localizada na psicosfera do Brasil.]


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

.

Abrir