Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Gratidão e paz — Familiares diversos


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Oswaldo Jandy Batista


UM MÚSICO CULTIVANDO A ARTE DE SERVIR

Oswaldo Jandy Batista, “o músico dos sete instrumentos”, considerado o maior instrumentista de banda e jazz surgido até hoje em sua terra natal, Anápolis, Goiás, regressou ao Mundo Maior em 18 de maio de 1978, aos 65 anos.

“Durante os quarenta anos que marcaram sua presença de músico em nossa cidade, tendo tomado parte em todas as bandas de música e orquestras que aqui existiram nos anos de 1922 a 1962, quer como integrante, quer como diretor, Jandy Batista foi o elemento de maior atuação em nosso meio musical.” (Sisenando G. Jaime, Correio do Planalto, Anápolis, 01/7/1978.)

Mas, ele foi além da arte musical… Com o conhecimento espírita, germinaram em seu coração outros ideais, que cresceram vigorosos permitindo-lhe amparar os semelhantes mais necessitados, praticando a sublime arte de servir…

Maçon abnegado, dentre outras participações, ocupou vários cargos no Abrigo dos Velhos, mantido pela Loja a que pertencia. Dedicou ao Hospital Espírita Psiquiátrico, do qual foi um trabalhador das primeiras horas, grande parcela de sua vida com muito desprendimento.

Se o sepultamento de seu corpo físico mereceu expressiva homenagem da população de Anápolis, não faltando a Banda de Música, também no Portal da Imortalidade lá estava um grupo de músicos amigos, que o antecederam na Grande Viagem, tendo à frente Tota, Sidonal, Antônio Branco e tantos outros, na expectativa de um forte abraço num reencontro feliz…

É o que “seu” Jandy nos conta em sua Primeira Carta endereçada à esposa, Dª Negrinha, na reunião pública de 5 de março de 1982, em Uberaba, provando nessas páginas afetuosas, bem como em duas outras mensagens, que continua lado a lado da família querida e prossegue ativo nas tarefas caritativas, dando continuidade, no Além, ao elevado cultivo da arte de servir.


1 Querida Negrinha, sempre lembrada companheira, decerto que você não esperava que eu a chamasse por Zefa ou Zeferina.

2 Estou bem, graças a Deus, e vejo que você apesar dos episódios difíceis da caminhada está em paz, desfrutando a alegria íntima de quem traz a medalha oculta dos deveres rigorosamente cumpridos.

3 Você dirá que tem sofrido muito, e eu responderei a você que ambos temos aproveitado bastante, de tudo o que vimos na estrada terrestre, com a sensação de sofrimento que não passava de lição na escola, para nosso próprio benefício.

4 Sei que você experimenta um vazio muito grande com a volta de nosso Osvaldo, o nosso querido Júnior, e compreendo que nas entranhas do coração de mãe, os filhos falam mais alto do que a voz dos próprios maridos; entretanto, sou eu mesmo que lhe venho notificar o que posso, a fim de tranquilizá-la. 5 Nosso filho, ou melhor, o nosso menino, vai muito bem e já consegue prestar-nos bons serviços, seja auxiliando a você na viagem do dia a dia, depois de tantos tratamentos com a ortopedia, convocada a colaborar em seu reajuste, após o acidente havido. Graças a Deus, tudo segue na pauta da vontade do Alto que conhecemos por lei da vida.

6 Atenda a saúde própria e reanime-se para as experiências que são nossas. Quando deliberou você sobre a mudança estava mais do que certa, porquanto o nosso devotado Eurípedes e outros amigos espirituais continuam a inspirá-la e conduzi-la em suas decisões.

7 Creia, não se deixe entregue à saudade do impossível. Não nos seria lícito voltar aos dias felizes do Sanatório, em Anápolis, porque certas emoções não se repetem. O nosso tempo de trabalho foi valioso e significa um curso de serviço, cujo valor não perderemos. Agora é a vez de outros e as situações são diferentes.

8 Esteja porém na certeza de que o nosso intercâmbio com os Amigos Espirituais nunca sofre qualquer alteração. Tudo de belo que nos alcançou na existência vim reencontrar aqui, e posso dizer-lhe que vale a pena aceitar as dificuldades da vida física, a fim de atingirmos em paz a margem do continente espiritual que nos aguarda.

9 Imagine que, quando quase me senti a sós, depois de distanciar-me dos seus cuidados, encontrei o meu pai Ismael, a recolher-me nos braços, e você pode raciocinar sobre o que seja o reencontro de amigos inesquecíveis que me abraçavam como quando se termina uma prova difícil nos exames do mundo.

10 Foram eles, o Tota, enriquecido de amor e luz na humildade com que se fez conhecido entre os homens; o Sidonal,   o Antônio Branco, Sequierolli, o Narceu e tantos outros que somente as  lágrimas de alegria poderiam enumerar.

11 Com isso quero reafirmar-lhe que o nosso Osvaldo vai bem, cercado de atenções na estrutura nova dos novos deveres que vem recebendo para cumprir.

12 A nossa Luzia, embora não registre, vem obtendo dele muito auxílio e eu com você mesma, unindo os meus pensamentos em preces, prosseguimos trabalhando por nossa Carmen Heleuza, por nosso Ismael e por nosso Mozart, e por todos aqueles que se nos associam à vida e ao coração.

13 Não sei se você percebe que todos vivemos uma corrente de auxílios mútuos. Ninguém avança sem o concurso de alguém. Assim é que, ao escrever-lhe pedi ao nosso amigo Dr. Americano do Brasil me auxiliasse para que eu não endereçasse a você uma correspondência mais pobre do que a minha pobreza de espírito.

14 Rogo-lhe calma e paciência. Não se aflija com as dificuldades que surjam. Faça alguma força para removê-las e Jesus fará o resto. Quanto puder, continue trabalhando nessas abençoadas tarefas que sempre foram e são ainda tão suas.

15 Abençoe o esposo que lhe deve tanto; e guarde a certeza de que sou sempre o seu companheiro e servidor reconhecido,


Oswaldo Jandy Batista


Notas e Identificações

1 — Querida Negrinha — Assim chamada, carinhosamente, sua esposa Dª Zeferina Sant’Anna Batista, atualmente residente em Goiânia. Cooperadora do Hospital Espírita Psiquiátrico (antigo Sanatório Espírita) de Anápolis, há décadas, contribuindo especialmente no setor doutrinário como dedicada médium. Atualmente é presidente de seu Conselho Fiscal. Ela explicou-nos em carta de 26/7/88: “Meu apelido é Negrinha, mas no início da mensagem ele mencionou Zefa, que era a expressão usada, às vezes, em família, para me chatear. Essa citação, de grande autenticidade, trouxe-me muita alegria.”

2 — Osvaldo, nosso querido Júnior — Filho, desencarnado em 3/5/1979, de acidente automobilístico.

3 — A mudança — Refere-se à mudança de Dª Negrinha de Anápolis para Goiânia.

4 — Nosso devotado Eurípides — Eurípedes Barsanulfo (Sacramento, MG, 1880-1918), um dos maiores vultos do Espiritismo brasileiro. É o mentor espiritual do Hospital Espírita Psiquiátrico de Anápolis. (Ver a obra Eurípedes — O Homem e a Missão, Corina Novelino, IDE.)

5 — Depois de distanciar-me de seus cuidados, encontrei o meu pai Ismael (…) reencontro de amigos inesquecíveis (músicos) — Dª Negrinha contou-nos em carta: “No dia do desencarne de Jandy, eu e minha concunhada Iracy estávamos passando a noite no hospital, quando pela madrugada, em torno de 1:30 h, tive uma vidência. O quarto clareou e vi o pai de meu esposo, à cabeceira, e os músicos em volta da cama cantando a Valsa da Despedida. Fiquei deslumbrada, descrevendo à Iracy o que estava acontecendo. Ao amanhecer, narrei em casa, esse fato para todos da família.”

6 — Pai Ismael — Ismael Silva Batista, progenitor, desencarnado em 1933.

7 — Tota — Apelido de Antônio Pereira da Costa, grande amigo e músico, desencarnado em 1956.

8 — Sidonal — Sidonal Ferreira, músico e amigo, desencarnado em 1950.

9 — Antônio Branco — Maestro de Banda, desencarnado em Cristalina, GO, a 22/12/1948.

10 — Sequierolli — Alexandre Sequierolli, maestro de Banda.

11 — Narceu — Narceu de Almeida, amigo e músico, padrinho de casamento, desencarnado em Nerópolis, GO, a 6/1/1953.

12 — Luzia — Luzia Aparecida F. Batista, nora.

13 — Carmen Heleuza — Carmen Heleuza Batista Vieira, filha.

14 — Ismael — Ismael Batista Neto, filho. 15 — Mozart-Mozart Vieira, genro.

16 — Dr. Americano do Brasil — Dr. Antônio Americano do Brasil (1891-1931), ilustre médico, historiador e poeta. Nasceu em Silvânia, e residia em Luziânia, ambas cidades goianas. Pela psicografia de Chico Xavier, tem escrito belas crônicas e sonetos, já publicadas em várias obras, dentre elas: Falando à Terra (FEB), Poetas Redivivos (FEB) e Entrevistas (IDE).

17 — Da Terceira Carta do Sr. Jandy, recebida em 8/2/1985, transcreveremos alguns tópicos relacionados com o Hospital Espírita Psiquiátrico, bem como uma saudação ao seu amigo e conterrâneo Weaker Batista, e esposa Dª Zilda, dedicados colaboradores do Grupo Espírita da Prece, de Uberaba: “(…) permanece firme no seu posto, porque a sua presença com as preces silenciosas junto de nossos irmãos doentes, significa um ponto de apoio para nós, os amigos Espirituais que nos empenhamos a atuar em auxílio aos enfermos. Aliás, companheiros nossos são da mesma opinião. (…) O doente recebe a insulinoterapia e depois, conosco, receberá um passe, na base da prece que o auxilie a se aceitar e a se renovar. (…) Os grupos em que você age são equipes de irmãos dedicados ao bem, e com eles poderá você colaborar da melhor maneira. Aliás, temos ainda a esperança de que o Geraldo Carneiro, como o José Cândido e outros amigos, venham a fundar um grupo de curas espirituais, exclusivamente na base do magnetismo curativo e da prece, em Anápolis, complementando a vasta obra assistencial de que a nossa querida cidade é detentora. Esperemos o tempo. (…) Escrevo-lhe aqui perto do nosso Weaker e esposa, e peço a Jesus os conserve na fé em Deus e no serviço ao próximo.”

18 — Oswaldo Jandy Batista — (Anápolis, 06/8/1912-18/5/1978) Foi funcionário da Prefeitura de Anápolis, desde 1933, onde exerceu os cargos de contador, tesoureiro e posteriormente coletor, função na qual se aposentou em 1961. Espírita convicto, ocupou o cargo de tesoureiro do Hospital Espírita Psiquiátrico, de 1952 até os últimos dias de sua vida terrena. Na Loja Maçônica Lealdade e Justiça 2ª, atingiu o grau máximo, 33, ocupando vários cargos, entre eles o de chanceler da Comissão de Finanças e da Comissão de Beneficências. Na arte musical, executava com maestria os mais diversos instrumentos desde o contrabaixo, bombardino, trompete, saxofone, clarinete até a flauta de seis buracos que se compra nos mercados. Tocando trombone, na década de 30, conseguiu galgar a glória em sua carreira musical. Em 1962, abandonou-a por motivo de saúde. (Síntese do artigo “Jandy Batista, o músico dos sete instrumentos”, de autoria de Leonardo Costa, Correio do Planalto, Anápolis, 01/17/1978.) E assim, Maria Ivone Corrêa Dias encerrou sua bela crônica: “Vá com Deus, “seu” Jandy”, publicada na Folha de Goiás, Seção Anápolis, Goiânia, 28/5/1978: “E agora, que Deus chamou o artista Jandy ao último sono (embalado pela Lira de Prata, como ele desejara), que nos resta dizer-lhe, numa homenagem póstuma, já que cometemos o pecado de não o homenagear em vida?

Vá com Deus, Jandy,

lhe diz sua cidade.

Quando um artista morre,

(não morre, apenas parte…)

deixando, no ar, a valsa da saudade

dizem que ele foi mostrar aos anjos

o timbre do seu trombone,

o encanto de sua arte…”


Hércio Marcos C. Arantes



Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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