Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano XII — Junho de 1869.

(Édition Française)

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS.


Novas histórias para as minhas boas amiguinhas. n

(Pela Srta. Sophie Gras de Haut-Castel, de dez anos de idade.)

Sob esse título acaba de aparecer, na livraria Dentu, uma obra que, à primeira vista, não parece ligar-se diretamente aos nossos estudos. Mas se compreenderá facilmente o interesse que esta coletânea de histórias infantis poderá ter para nós, ao se tomar conhecimento desta nota do editor: – O volume que se vai ler é textualmente obra de uma menina, que o compôs desde os oito anos e meio até dez anos e meio.

O primeiro sentimento que nasce no espírito do leitor é certamente o de dúvida. Abrindo as primeiras páginas, um sorriso de incredulidade se estampa em seus lábios; pergunta-se quem pôde tornar-se cego a ponto de publicar as elucubrações incoerentes de um cérebro infantil. Mas o espírito crítico se desvanece, e a atenção e a curiosidade despertam ao descobrir interesse nestas historietas, situações verossímeis, uma conclusão lógica, caracteres bem desenvolvidos, uma moralidade.

A senhorita Sophie Gras não é, aliás, uma principiante; há um par de anos publicou sua primeira obra, sob o título de: Contos para as minhas amiguinhas. É, como esta última, inteiramente obra de uma menina de oito anos e meio que, numa idade em que quase só se pensa em brincar e folgar, dá curso às composições nascidas de sua ardente imaginação.

Sem dúvida se encontram reminiscências de leituras nestas obras infantis, mas, além disso, sentem-se as ideias pessoais, a observação, aliadas a uma instrução notavelmente desenvolvida. A Srta. Sophie Gras certamente conhece todos os grandes fatos da História de seu país; as dificuldades de gramática, de aritmética e de geometria são um brinquedo para ela. Deve ter estudado com proveito a botânica e a geologia, porque a fauna e a flora dos diversos países que descreve lhe são perfeitamente conhecidas. Algumas citações tomadas ao acaso provarão, melhor do que tudo quanto poderemos dizer, o atrativo deste livro.


Em cada página encontram-se quadros como este:

“Com um sopro ofegante, a velha vovó avivou os carvões quase apagados que dormiam debaixo da cinza. Fez um pouco de fogo com os restos de sarmentos, que eram as únicas provisões do inverno, e pôs alguns carvões nas braseiras de barro. Pendurou a lâmpada de ferro num caniço, reaqueceu a caminha de suas netas e se pôs a cantar uma velha balada gaélica para as adormecer, enquanto fiava na roda para lhes fazer um vestido.

“A cabana era enfeitada com velhas imagens de santos pregadas às paredes de taipa. Alguns utensílios de cozinha, assim como uma grossa mesa de carvalho, formavam todo o mobiliário, e uma simples cruz de madeira pendia de um prego.”


Ou ainda as descrições:

“Em seu declínio o Sol espalha mais que alguns raios de ouro, que se extinguem no meio das nuvens róseas. Penetra fracamente através da folhagem transparente, onde deixa uma cor verde suave; dispersa o resto de seu brilho sobre as folhas dos loureiros-rosa, cujos matizes atenuam, enquanto o astro da noite deixa lentamente seu sono prolongado.”

Página 18: “No dia seguinte, ao romper da aurora, Delfina levantou-se, tomou seu pacotinho debaixo do braço e uma cesta com provisões. – Fechou sua casa e partiu brincando. Adeus, rochedos, regatos, bosques e fontes, que tantas vezes me distraístes com o vosso suave murmúrio; adeus, claras águas que eu bebia…

“…Acabando de surgir, o Sol marchava majestosamente e fazia brilharem as flores de todas as cores. Estas, molhadas por um suave orvalho, exalavam os mais doces perfumes. Aproximava-se o inverno, mas a manhã era radiosa e gotas d'água pendiam das árvores, que erguiam os ramos, vergados ao peso de seus frutos.”


Página 36: “A Sra. de Rozan, que havia ficado num cárcere infecto, onde dificilmente penetravam os raios de um dia pálido e sem brilho, estava deslumbrada pela claridade do Sol… Ela ouvia, borbulhando a seu lado, regatos espumantes, cujos murmúrios escutava com volúpia. Considerava o lírio branco das águas, onde tremia uma gota de orvalho, e seus botões torcidos, prestes a se abrirem. – “Tua morada, ó Delfina, dizia ela, é mais encantadora do que era o meu palácio.”


Páginas 55-56: “Nenhum ruído se ouvia, a não ser o crepitar das chamas, cujas faíscas apareciam como tochas sinistras em meio à noite. Logo redobrou a violência do incêndio. Turbilhões de chamas entremeadas de fumo negro e vermelho elevavam-se nos ares. – As velhas bananeiras e os teixos seculares caíam com estalos horríveis. – Os pios lamentosos das pombas, gemendo nos arvoredos da savana, retiniam ao longe como o som dos sinos que se lamentam.”


Página 77: “As bordas da torrente eram esmaltadas de flores perfumadas, que formavam uma miscelânea de todas as cores sobre o tapete verde das ervas. A filha da primavera, a amável violeta, emblema da simplicidade, crescia abundante naquele lugar onde a mão do homem jamais a havia colhido.”


Página 101: “Não longe dali havia um prado cheio de ervas-toiras, de silenes, de violetas e de amarantos; algumas tílias quase mortas, de folhas amarelas, surgiam de longe em longe, dispostas sem simetria. Milhares de pássaros adejavam sobre os ramos floridos, cantando suas árias mais harmoniosas; as árvores estavam carregadas de frutos e seus ramos musgosos, rompendo-se sob o peso à menor tempestade, faziam ouvir surdos estalos. Naquele jardim, imagem do paraíso terrestre, cercado por uma floresta negra, não se sentia nem infelicidade, nem os remorsos da alma; tudo ali era encantador e pacífico; ali se era puro… Que faltava àquele lugar, que a Divina Providência se esmerou em ornar com todas as belezas da Natureza?”


Página 286: “Margarida tinha escolhido duas de suas amigas, em cujo número estava Ethéréda, para marchar atrás dela e levar a sua coroa. Estas duas meninas, que lhe serviam de acompanhantes, eram gentis como deusas; teríeis tomado cada uma delas por Vênus criança, mas acrescentando que seu rosto tinha a suavidade e a bondade das virgens cristãs. Eram dois botões de rosa antes de abrir.”


Gostaríamos de citar tudo e demonstrar à saciedade a poesia ingênua, o conhecimento real dos sentimentos que se afirmam, em cada página, em meio a reflexões infantis, como os lampejos de um gênio que ainda se ignora, mas que transparece malgrado os obstáculos que lhe opõe um instrumento cerebral incompletamente desenvolvido.

Supondo que a memória represente aqui um certo papel, o fato não é menos admirável e importante, por suas consequências psicológicas. Forçosamente chama a atenção para fatos análogos de precocidade intelectual e conhecimentos inatos. Involuntariamente procura-se explicá-los, e com as ideias de pluralidade de existências, que dia após dia adquire mais autoridade, chega-se a não lhe encontrar a solução racional, senão no princípio da reencarnação.

Esta criança adquiriu numa existência anterior, e seu organismo, extremamente maleável, lhe permite extravasar em obras literárias seus variados conhecimentos e assimilar as formas atuais. Os exemplos desse gênero não são raros, tal qual foi Mozart criança, como compositor; tal qual Jean-Baptiste Rey, que morreu como grão-mestre da capela imperial. Apenas com nove anos, cantava, com os pés no orvalho e a cabeça ao sol, precisamente perto da cidade de Lauzerte,  †  no vale do Quercy,  †  onde nasceu e reside a nossa heroína. Era uma alma no exílio, que se lembrava das melodias da pátria ausente e se tornava o seu eco. A expressão e a justeza de seu canto chocaram um estranho, que o acaso havia trazido àquele lugar. Levou-o consigo a Toulouse,  †  fê-lo entrar na escola de música de Saint-Sernin, de onde o menino, feito homem, saiu para ir dirigir, na orquestra da ópera, as obras-primas de Gluck, Grétry, Sacchini, Salieri e Paesiello. Tal foi, também, a Sra. Clélie Duplantier, um dos nossos mais notáveis Espíritos instrutores, que, desde a idade de oito anos e meio, traduzia fluentemente o hebraico e ensinava latim e grego a seus irmãos e primos, mais velhos que ela própria.

Deve-se concluir que as crianças que só aprendem à força de estudos perseverantes foram ignorantes ou sem meios em sua existência precedente? Não, por certo; a faculdade de lembrar-se é inerente ao desprendimento mais ou menos fácil da alma e que, em algumas individualidades, é levado aos mais extremos limites. Existe nalguns uma espécie de vista retrospectiva, que lhes lembra o passado, ao passo que para outras, que não a possuem, o passado não deixa qualquer traço aparente. O passado é como um sonho, do qual a gente se lembra mais ou menos exatamente, ou que por vezes nos esquecemos completamente.


Vários jornais dão conta das obras da Srta. Sophie Gras; além disso, o Salut public, de Lyon,  †  fazendo os elogios merecidos à inteligência precoce da autora, acrescenta o seguinte:

“Sou tentado a dedicar o início de minha conversa aos amadores de fenômenos, fenômenos morais e intelectuais, bem entendido, porquanto, na ordem física, nada é penoso para ver, em minha opinião, como essas derrogações vivas das leis da Natureza…

…”A família da Srta. Sophie Gras, que desfruta uma grande fortuna e alta consideração em Quercy, não premeditou esse sistema de educação; ela não interviu, mas ainda não é muito? Esta menina prodigiosa nada conheceu das alegrias infantis e desflora, numa pressa prematura, as da adolescência, etc., etc.…”


Partilhamos completamente da opinião do redator do Salut public, no que concerne às monstruosidades físicas. A gente é penosamente afetada à vista de certas exibições desse gênero; mas serão mesmo derrogações das leis da Natureza? Ao contrário, não seria mais lógico ver, como ensina o Espiritismo, uma aplicação de leis universais ainda imperfeitamente conhecidas e uma demonstração da natureza oposta, mas tão concludente quanto a primeira, da pluralidade das existências?

Quanto ao perigo de deixar a Srta. Sophie Gras entregue às suas inspirações, somos de opinião que tal não existe. O perigo seria refrear essa necessidade de expansão que a domina. Seria tão imprudente forçar a concentração das inteligências que assim se afirmam, quanto acumular no espírito de certos pequenos prodígios conhecimentos que se revelam por um gesto, músicos ruins que agradam numa primeira audição, mas que causam fadiga rapidamente; talvez inteligências notáveis, mas que se estiolam e se abastardam numa temperatura de estufa, para a qual não nasceram.

As vocações naturais, consequências de aquisições anteriores, são irresistíveis; combatê-las é querer quebrar as individualidades que as possuem. Deixemos, pois, governar-se pela inspiração os Espíritos que, como a Srta. Gras, chegaram passando pela fileira comum das encarnações sucessivas.



[1] Paris, 1869, 1 vol. in-18 – Preço 3 fr. 30 franco.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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