Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano VI — Outubro de 1863.

(Édition Française)

Inauguração do retiro de Cempuis.

(Sumário)

Já falamos do retiro de Cempuis,  †  perto de Grandvilliers,  †  no Departamento do Oise, fundado pelo Sr. Prévost, membro da Sociedade Espírita de Paris.  †  A construção está hoje terminada, bem como as instalações internas. Contíguo ao estabelecimento, embora formando uma construção isolada, há uma capela em estilo gótico, de aspecto monumental. A inauguração da capela ocorreu domingo, 19 de julho último, dia de São Vicente de Paulo, a quem é dedicada, numa cerimônia inteiramente consagrada à caridade, isto é, por uma distribuição de pão, vinho e carne aos pobres da paróquia. O Sr. Prévost pronunciou a respeito o discurso seguinte, que temos a satisfação de reproduzir:

“Senhores,

“Conheceis o motivo desta reunião; assim, não me estenderei sobre detalhes inúteis e que nada revelariam que já não saibais. A obra material está hoje praticamente realizada, graças à evidente proteção do Todo-Poderoso, que se dignou secundar os meus esforços. Estamos aqui em família, todos, e não o duvido, animados dos mesmos sentimentos por sua divina bondade. Unamo-nos, pois, num mesmo impulso de gratidão; oremos a ele, para que continue a nos assistir e a nos dar as luzes que nos faltam.

“Deus do Céu e da Terra, soberano senhor de todas as coisas, tem piedade de nossa fraqueza; eleva nossos corações para ti, a fim de que aprendamos a cumprir nossos deveres segundo tua vontade e para que todas as nossas ações estejam em consonância com a tua lei universal. Senhor, faze que nossa alma se encha de teu amor; que ela se deixe cativar pelo fogo sagrado da convicção e que prove sua fé por atos de verdadeira caridade. Todas as palavras, por melhores que sejam, se não forem seguidas de efeitos de benevolência para com as tuas criaturas, assemelham-se a uma bela árvore sem frutos.

“Ajuda-nos, pois, ó Poder Infinito, a superar os obstáculos que poderiam erguer-se ante os nossos passos e entravar o desejo de nos tornarmos úteis na missão para a qual nos escolheste; dá-nos a força necessária para a realizarmos com amor e sinceridade.

“Os bons socorros dados à velhice te são agradáveis, meu Deus, porque são atos de justiça; ela nos precedeu no caminho; o sulco que abriu foi regado com seu suor e nós lhe recolhemos os frutos. Hoje sua experiência é um campo já ceifado, mas onde ainda temos o que colher; é, pois, justo que recompensemos o seu sacrifício, assegurando-lhe o repouso após o trabalho. É um dever para nós, pois gostaríamos que o mesmo fosse feito conosco; mas para o realizar dignamente é-nos necessária a tua assistência, pois temos consciência da nossa fraqueza.

“É também em teu nome, Senhor, que aqui o órfão encontrará uma nova família; a criança abandonada crescerá entre nós ao suave calor do fogo divino com que favoreceste São Vicente de Paulo, a quem rogamos nos assistir, para que possamos realizar este ato mirados no seu exemplo.

“Espírito infinito, tudo está em ti, tudo é por ti, nada está fora de ti; os castigos, como as recompensas, nos vêm de tua mão abençoada; conheces as nossas necessidades, somos teus filhos e nos entregamos à tua divina Providência.

“Os bons Espíritos que, sob o teu olhar paternal, presidem aos destinos da Terra, os anjos de guarda dos homens, mereceram tua confiança, Senhor; esperamos que, por ti, eles nos ajudem a conservar intacto o sublime código moral promulgado pelo Cristo, teu filho bem-amado. – Amai a Deus, disse-nos ele do alto da cruz, há dezoito séculos; amai-vos uns aos outros; amai o próximo como a vós mesmos; praticai a caridade para com todos e em todas as coisas. Eis a sua lei, Senhor, e essa lei é a tua; possa ela gravar-se em nossos corações e nos fazer ver irmãos em todos os nossos semelhantes, que, como nós, são teus filhos. Assim seja.”

“Meus amigos, meus irmãos, sigamos este grande exemplo, e tenhamos uma sincera fé em Deus; ele nos ajudará a suportar as consequências da má direção que o esquecimento dos deveres imprimiu à sociedade, em tempos já distantes de nós. Hoje muitas coisas entram na ordem prescrita pelo Criador; apesar do egoísmo que ainda domina um grande número, o amor fraterno é mais bem compreendido; os preconceitos de castas, de seitas e de nacionalidades se apagam pouco a pouco; a tolerância, uma das filhas da caridade evangélica, pouco a pouco faz desaparecerem os antagonismos que, por tanto tempo, têm dividido os filhos de um mesmo Deus; os sentimentos humanitários infiltram-se no coração das massas e já realizaram grandes coisas em diversos pontos da Terra. Na França, numerosas fábricas desativadas experimentaram recentemente os suaves efeitos deste amor do próximo. Esse arroubo para o sofrimento fala bem alto em favor de nosso país; é preciso ver aí a mão de Deus. É com alegria que vemos a primeira nação do mundo civilizado levar até as plagas mais longínquas os frutos desse amor da Humanidade, que só a verdadeira grandeza dá e que colheu no centro radiante da cruz, ajudada pelo luz do progresso, que obriga o homem a ser melhor para com o seu semelhante e a tornar-se melhor ele próprio.

“Espero, meus amigos, com o concurso de homens instruídos e benevolentes, formar depois uma biblioteca moral e instrutiva, anexa a este estabelecimento, onde cada um pode haurir os meios de se melhorar, tanto em relação ao espírito, quanto em relação ao coração.

“Agradeço-vos com toda sinceridade a todos vós, que acorrestes ao meu apelo, vindo oferecer, em comum, ações de graça à Divindade, em reconhecimento à inspiração por ela dada à fundação desta instituição.

“A partir de hoje, 19 de julho de 1863, esta capela, dedicada a São Vicente de Paulo, cuja suave e imortal imagem retrata em seus vitrais, lhe é publicamente consagrada por seu fundador, que, doravante, quer que ela seja considerada um lugar santo, um lugar de prece. Aqui Deus deve ser adorado e, perante o símbolo de seu amor pelos homens, ante essa venerável e grande figura do apóstolo da caridade cristã, devemos nos compenetrar de que o amor do próximo deve ser praticado por atos e deve estar no coração, e não nos lábios.

“Antes de nos separarmos, vamos repetir a oração dominical.

“Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia dai-nos hoje. Perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Assim seja.”

Naquela ocasião o Sr. Prévost houve por bem remeter-nos, pessoalmente, a soma de 200 fr. para obras de beneficência, cujo emprego, infelizmente, não é difícil de encontrar.

A propósito do discurso acima, a Sociedade Espírita de Paris votou por unanimidade e por aclamação, a seguinte carta, que lhe foi dirigida:

“Senhor e mui caro colega,

“A Sociedade Espírita de Paris, da qual fazeis parte, ouviu com o mais vivo interesse a leitura do discurso que pronunciastes na inauguração da capela do retiro que fundastes em vossa propriedade de Cempuis. Tal discurso é a expressão dos nobres sentimentos que vos animam; é digno daquele que faz tão bom uso da fortuna adquirida pelo trabalho, e que não espera, para torná-la proveitosa aos infelizes, que a morte lha tenha tornado inútil, porque é em vida que vos impondes privações para fazer maior a vossa parte. A Sociedade sente-se honrada em contar entre os seus membros um adepto que faz uma aplicação tão cristã dos princípios da Doutrina Espírita; e decidiu, por unanimidade, vos transmitir oficialmente a expressão de sua viva e fraterna simpatia pela obra humanitária que empreendestes, e por vossa pessoa em particular.

“Recebei, etc.”


A fortuna do Sr. Prévost é inteiramente fruto de suas obras, o que lhe aumenta o mérito. Depois de ter sofrido o contragolpe das revoluções que lhe fizeram perder dinheiro, recuperou a fortuna por sua coragem e perseverança. Hoje, que chegou à idade do repouso, que poderia largamente dar-se ao luxo e aos prazeres da vida, contenta-se com o estritamente necessário e, ao contrário de muitos outros, não espera não precisar de mais nada para que seus irmãos em Jesus Cristo participem do seu supérfluo. Assim sua recompensa será bela e ele desfruta as primícias pelo prazer proporcionado pelo bem que faz.

Não obstante, aos olhos de certa gente o Sr. Prévost tem um grande defeito: ser espírita e professar a doutrina do demônio. Seu discurso, porém, não é o de um ateu, nem mesmo de um deísta, mas de um cristão; sua própria moderação é uma prova de caridade, pois se absteve de maldizer o próximo e mesmo de fazer alusão aos que lhe impunham condições que a sua consciência não permitia aceitar. [v. Um ato de justiça.]


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