Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano VI — Junho de 1863.

(Édition Française)

Meditações sobre o futuro.


POESIA PELA SRA. RAOUL DE NAVERY.
Lida na Sociedade Espírita de Paris,  †  em 27 de março de 1863.

Observação. – Embora não tenhamos o hábito de publicar poesias que não sejam produtos mediúnicos já constatados, por certo nossos leitores nos serão agradecidos por fazermos exceção ao seguinte trecho de inspiração, a bem dizer espontânea, de uma pessoa que, até pouco tempo atrás, ainda relegava as crenças espíritas como utópicas.


Quando da morte a mão, golpes multiplicando,

Outrora, a nossa volta, o luto semeando,

Só assim nos consolava a nos ferir o ouvido:

“Se no túmulo dorme um ser muito querido

“É que a alma da prisão do corpo libertou-se,

“Do invólucro pesado a um outro etéreo e doce;

“Retornando afinal à origem primitiva,

“De Deus desfruta, então, a força e luz bem viva;

“Nele reencontrareis, um dia, e com fervor

“Ao invés do amor terrestre um imortal amor!”

Agora, não é mais tão longínqua esperança

Que em nossos males um clarão incerto lança;

Futuro já não é aos mortos esquecer:

Perto de nós estão, sem vê-los, a nos ver,

Sentindo-nos a fé e nossos sofrimentos;

Mensageiros trazendo a nós santos alentos,

A responderem do Alto ao que aqui cogitamos;

Apertam suas mãos as nossas se aspiramos

Beijos de sua boca; enquanto de outra esfera

Alentam nosso amor ao mistério da espera.

Ao evocá-los nós, quais ocultos enxames,

Claridade e calor nos sopram em derrames;

Eles vêm! E pra nós tudo muda e se colora;

De ignotos mundos nós pressentimos a aurora;

Nos ilumina a mente um fulgor sideral,

E adoramos, então, num silêncio total

Todo o poder de Deus por eles revelado.


Responde! Ó eternal Saber se nos é dado

Ofensas Te fazer! ao romper, santamente,

O véu que limitava o olhar da humana gente?

Seguidores fiéis, vamos de alma tenaz

Do Evangelho rasgar os textos divinais?

De homens convictos, não! Corações de valor,

Fazemos depois dele o que fez o Senhor:

Nós cremos: – Operar milagres nós podemos,

Cenáculos de luz dos lares nós faremos,

O Espírito a invocar cujas línguas de fogo

A serviço de Deus os simples ponham, logo.


Lá dos confins do céu soprai, ventos celestes!

Para longe de nós tangei trevas agrestes;

Espalhai vossa luz, ó candelabros de ouro,

E que da arca sagrada aclarai o tesouro!

Ó raios do Sinai! Sarça do Horeb ardente!

Espíritos do bem, tende o poder na mente,

Espírito, qual sopro a que sentiu passar

Por sua pele Job, seus pelos a eriçar;

Ó vós que, destruindo as almas exaltadas,

Martirizando enfim turbas amotinadas,

Na Idade Medieval, um atormentador

Gerou o sanguinário algoz inquisidor;

Vinde! Que há sede em nós de ensinos mais ordeiros;

Da infância há tempo já rejeitamos os cueiros;

Pois já nos fazem falta os nomes e as verdades

Que nos velhos sermões não tinham claridades.


De inertes multidões marchamos, hoje, à frente,

Se a Verdade a fulgir em luz incandescente

Nos devora e de nós quer mártires fazer,

Morreremos sorrindo e sem a desdizer.

Precedemos o tempo; a expressar como os Magos

Homenagens a Deus com orações de afagos.

E bem sabemos que de nós assim dirão:

“Esses poetas, enfim, sonhando loucos são!”

Seja! que assim também com deslustrante imagem

Diziam de Jesus, na hora que a criadagem

Bordoadas na face e vestes lhe desanca,

Lançando-lhe, sublime emblema, a toga branca.

Disse Paulo: “É loucura, então, sabedoria!”

Coragem sem cessar, busquemos na harmonia;

Indaguemos do morto os possantes segredos;

Afastemos de nós certos sentidos tredos;

Este mundo em que Deus suas regras nos prova,

Como às águias nos muda e sempre nos renova!

Firmes por seu Direito, e fortes no poder,

Abriremos ao mundo as fontes do saber.

Virá o dia, – e creio, está bem perto a aurora,

- Que a humana multidão, cansada, não mais chora,

Por saber aplacar dos corações a sede

Com a onda que sacia e o pranto em fogo impede,

Virá nos repetir num imenso lamento:

“Dai-nos da luz a fé e da esperança o alento;

“Dai-nos com vossa mão toda a unção da virtude

“Que nos eleva a fronte à terra em lassitude.

“Nossos olhos sem luz face à poeira imunda,

“Fazei-os enxergar claridade fecunda.

“Pronunciai o Epheta misterioso do Cristo!

“Transfigurai a carne ao Ser preso em registo!

“Vivos, nos colocai, portanto, dentre a coorte

“Dos que se vêm mostrar após a ação da morte!

“Os sepulcros, ah, não! já túmulos não são,

“Porém corações maus, e caiados, então.

“Os mortos instruirão a nós como viver

“A fim de obter de Deus possamos reviver!”


E nós, que no Senhor sentimo-nos aceitos

Para habitar na Terra em locais mais perfeitos,

Abraçamos o irmão sem qualquer formalismo,

Em nome do Evangelho! À luz do Espiritismo!


Raoul de Navery. n



[1] [v. Raoul de Navery.]


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