Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano V — Dezembro de 1862.

(Édition Française)

Estudos sobre os possessos de Morzine.

Causas da obsessão e meios de combatê-la.

Itens 1-15. (1ª Parte.) Dezembro de 1862. – 16-24a. (2ª Parte.) Janeiro de 1863. – 24b-29. (3ª Parte.) Fevereiro de 1863. – 30-38a. (4ª Parte.) Abril de 1863. – 38b-45. (5ª Parte.) Maio de 1963. –  46-48. (Novos detalhes sobre os possessos de Morzine.) Agosto de 1864.


(Quinto e último artigo. – Vide os números de dezembro de 1862, janeiro, fevereiro e abril de 1863.)

(Vide também, sobre o mesmo assunto, o nº de abril de 1862.)

38b. – Como puderam notar, o Dr. Constant chegou a Morzine  †  com a ideia de que a causa do mal era puramente física. Podia ter razão, porquanto seria absurdo supor a priori uma influência a todo efeito cuja causa é desconhecida. Segundo ele, esta causa está inteiramente nas condições higiênicas, climáticas e fisiológicas dos habitantes. Longe de nós pretender que ele pensasse o contrário, o que também não seria mais lógico. Dizemos simplesmente que, com sua ideia preconcebida, não viu senão o que queria ver, ao passo que, se ao menos tivesse admitido a possibilidade de outra causa, teria visto outra coisa.

Quando uma causa é real, deve poder explicar todos os efeitos que produz. Se certos efeitos vêm contradizê-la, é que é falsa ou não é única e, então, é preciso procurar uma outra. Incontestavelmente é o raciocínio mais lógico e a própria justiça, em suas investigações na busca da criminalidade, não procede de outra maneira. Se se trata de constatar um crime, chega ela com a ideia de que deve ter sido cometido desta ou daquela maneira, por tal ou qual pessoa? Não. Ela observa as menores circunstâncias e, remontando dos efeitos às causas, afasta as que são inconciliáveis com os efeitos observados e, de dedução em dedução, é raro que não chegue à constatação da verdade. Dá-se o mesmo nas ciências. Quando uma dificuldade resta insolúvel, é mais prudente adiar o seu julgamento; então toda hipótese é permitida para tentar resolvê-la. Mas se a hipótese não resolve todos os casos da dificuldade, é que é falsa; e só terá o caráter de uma verdade absoluta se der a razão de tudo. É assim que no Espiritismo, por exemplo, pondo de lado toda constatação material, remontando dos efeitos às causas, chega-se ao princípio da pluralidade das existências, como consequência inevitável, porque só ele explica claramente o que nenhum outro pôde explicar.

Aplicando este método aos fatos de Morzine, é fácil ver que a causa única admitida pelo Dr. Constant está longe de tudo explicar. Ele constata, por exemplo, que em geral as crises cessam tão logo os doentes deixam o território da comuna. Se, pois, o mal é devido à constituição linfática e à má nutrição dos habitantes, como a causa deixa de agir quando eles transpõem a ponte que os separa da comuna vizinha? Se as crises nervosas não fossem acompanhadas de nenhum outro sintoma, ninguém duvidaria que se pudesse, conforme tudo indica, atribuí-las a um estado constitucional; mas há fenômenos que não podem ser explicados somente por esse estado.


39. – Aqui o Espiritismo nos oferece uma comparação admirável. No começo das manifestações, quando se viam as mesas girando, batendo, endireitando-se e se erguendo no espaço sem ponto de apoio, o primeiro pensamento foi que se devesse à ação da eletricidade, do magnetismo ou de um fluido desconhecido. Esta suposição nada tinha de desarrazoado; ao contrário: oferecia toda probabilidade. Mas quando se viu que esses movimentos davam sinais de inteligência, manifestavam uma vontade própria, espontânea e independente, a primeira hipótese teve de ser abandonada porque não resolvia esta fase do fenômeno, sendo necessário que se reconhecesse, no efeito inteligente, uma causa inteligente. Qual era essa inteligência? É ainda pela via da experimentação que a ela se chegou, e não por um sistema preconcebido.

Citemos um outro exemplo. Quando Newton, ao observar a queda dos corpos, notou que todos caíam na mesma direção, procurou a causa e formulou uma hipótese. Esta hipótese, resolvendo todos os casos do mesmo gênero, tornou-se a lei da gravitação universal, lei puramente mecânica, porque todos os efeitos eram mecânicos. Mas suponhamos que vendo tombar uma maçã, esta tivesse obedecido à sua vontade; que, ao seu comando, ao invés de descer tivesse subido, fosse para a direita ou para a esquerda, tivesse parado ou entrado em movimento; que, por um sinal qualquer, respondesse ao seu pensamento: ele teria sido forçado a reconhecer algo mais além das leis da mecânica, isto é, não sendo a maçã inteligente por si mesma, devia obedecer a uma inteligência. Foi assim com as mesas girantes; é assim com os doentes de Morzine.


40. – Para não falar senão dos fatos observados pelo próprio Dr. Constant, perguntaremos como uma alimentação má e um temperamento linfático podem produzir antipatia religiosa em pessoas naturalmente religiosas e até devotas? Se fosse um fato isolado podia ser uma exceção; mas se reconhece que é geral e que é uma das características da doença, lá e alhures. Eis um efeito; procurai a sua causa. Não a conheceis? Seja; confessai-o, mas não digais que se deve aos hábitos alimentares dos habitantes, que se nutrem de batatas e de pão preto, nem à sua ignorância e tacanhice de espírito, porque vos oporão o mesmo efeito entre gente que vive na abundância e recebeu instrução. Se o conforto bastasse para curar a impiedade, ficaríamos admirados de encontrar tantos ímpios e blasfemadores entre pessoas que de nada se privam.

O regime higiênico explicaria melhor este outro fato não menos característico e geral do sentimento de dualidade, que se traduz sem equívoco na linguagem dos doentes? Certamente não. É sempre um desconhecido quem fala; sempre uma distinção entre ele e a mocinha, fato constante nos indivíduos no mesmo caso, seja qual for a classe social a que pertençam. Os remédios são ineficazes por uma boa razão: é que são bons, como diz aquele desconhecido, para a jovem, isto é, para o ser corporal, mas não para o outro, aquele que não é visto e que, entretanto, a faz agir, a constrange, a subjuga, a derruba e se serve de seus membros para bater e de sua boca para falar. Ele diz nada ter visto que justifique a ideia da possessão, embora os fatos estivessem diante de seus olhos, como ele mesmo os cita. Podem ser explicados pela causa que ele lhes atribui? Não. Então esta causa não é verdadeira; como ele via efeitos morais, devia procurar uma causa moral.


41. – Um outro médico, o Dr. Chiara, que também visitou Morzine e publicou sua apreciação, n constatou os mesmos fenômenos e os mesmos sintomas que o Dr. Constant. Mas para ele, como para este último, os Espíritos malignos estão na imaginação dos enfermos. Em seu relatório encontramos o seguinte fato, a propósito de uma doente:

“O acesso começa por um soluço e movimentos de deglutição, pela flexão e extensão alternativos da cabeça sobre o tronco; em seguida, depois de várias contorções que lhe dão ao rosto tão suave uma expressão aterradora, grita ela ao médico “S…, eu sou o diabo…; queres que eu abandone a moça, mas não tenho medo de ti… vem!… há quatro anos que eu a subjugo: ela é minha e nela ficarei. – Que fazes nesta moça? – Eu a atormento. – E por que, infeliz, atormentas uma pessoa que não te fez nenhum mal? – Porque me puseram aqui para atormentá-la. – És um celerado.” Paro aqui, atordoado por uma avalanche de injúrias e imprecações.”


Falando de outra doente, diz ele:

“Após alguns instantes de uma cena muda, de uma pantomima mais ou menos expressiva, nossa possessa põe-se a soltar pragas horríveis. Espumando de raiva, injuria-nos a todos com um furor sem igual. Mas – digamos sem demora – não é a moça que assim se exprime; é o diabo que a possui e que, servindo-se de seu órgão, fala em seu próprio nome. Quanto à nossa energúmena,  †  não passa de um instrumento passivo, no qual a noção do eu foi completamente abolida. Se a interpelam diretamente, fica muda: só Belzebu responderá.

“Enfim, depois de uns três minutos esse drama assustador cessa de repente, como que por encanto. A jovem B… retoma o ar mais calmo, o mais natural do mundo, como se nada tivesse acontecido. Tricotava antes; ei-la a tricotar depois, parecendo não ter interrompido o trabalho. Interrogo-a; responde não sentir a mais leve fadiga nem se lembrar de nada. Falo-lhe das injúrias que nos dirigiu: ela as ignora; mas parece ficar contrariada e nos pede desculpas.

“Em todas essas doentes a sensibilidade geral é completamente abolida. Por mais que as belisquem, piquem ou queimem, nada sentem. Numa delas fiz uma dobra na pele e a atravessei com uma agulha comum: correu sangue, mas ela nada sentiu.

“Em Morzine vi ainda várias dessas doentes fora do estado de crise. Eram jovens, corpulentas e saudáveis, gozando da plenitude das faculdades físicas e morais. Vendo-as, era impossível supor a existência da menor afecção.”

Isto contrasta com o estado raquítico, macilento e enfermiço que o Dr. Constant julgou ter notado. Quanto ao fenômeno da insensibilidade durante as crises, não é, como se viu, a única semelhança que esses fatos apresentam com o estado cataléptico, o sonambulismo e a dupla vista.

De todas as suas observações o Dr. Chiara chegou a esta definição do mal:

“É um conjunto mórbido, formado de diferentes sintomas, inerentes em maior ou menor grau ao quadro patológico das doenças nervosas e mentais; numa palavra, é uma afecção sui generis [única, peculiar], para a qual conservarei o nome que lhe foi dado, de hístero-demonia, visto ligar pouca importância às denominações.”

É o caso de dizer: “Quem tiver ouvidos, ouça.” É um mal particular, formado de diferentes partes e que tem sua fonte um pouco em toda parte. É o mesmo que dizer simplesmente: “É um mal que não compreendo.” É um mal sui generis: estamos de acordo; mas qual esse gênero, ao qual nem mesmo sabeis dar o nome?


42. – Poderíamos provar a insuficiência de uma causa puramente material para explicar o mal de Morzine por muitas outras comparações, que os próprios leitores farão. Que então se reportem aos nossos artigos precedentes sobre o mesmo assunto, ao que dizemos da maneira por que se opera a ação dos Espíritos obsessores, dos fenômenos resultantes dessa ação e a analogia ressaltará com a última evidência. Se, para os habitantes de Morzine, o desconhecido que interfere é o diabo é porque lhes disseram que era o demônio e eles só conheciam isto. Sabe-se, aliás, que certos Espíritos de baixo nível divertem-se em tomar nomes infernais para amedrontar. A este nome substituí em sua boca a palavra Espírito, ou, melhor ainda, maus Espíritos e tereis a reprodução idêntica de todas as cenas de obsessão e de subjugação que relatamos. É incontestável que, numa região onde imperasse a ideia do Espiritismo, os doentes se diriam impelidos pelos maus Espíritos e passariam por loucos aos olhos de muita gente, caso sobreviesse uma epidemia semelhante. Dizem que é o diabo; é uma afecção nervosa. É o que teria acontecido em Morzine, se o conhecimento do Espiritismo ali tivesse precedido a invasão dos Espíritos. Seus adversários protestariam; mas a Providência não lhes quis dar essa satisfação passageira: ao contrário, quis provar-lhes sua impotência para combater o mal pelos meios ordinários.

Afinal de contas, recorreram ao afastamento das doentes, que foram levadas aos hospitais de Thonon,  †  Chambéry,  †  Lyon,  †  Mâcon,  †  etc. Era um bom recurso, porquanto, uma vez transferidas de Morzine, podiam jactar-se de que não existiam mais doentes na região. A medida podia basear-se num fato observado, o da cessação das crises fora da comuna; mas parece ter sido estribada em outra consideração: o isolamento das doentes. Aliás, a opinião do Dr. Constant é categórica. Diz ele: “Segundo um velho amigo meu, o Dr. Bouchut, deveria haver uma espécie de lazareto, onde pudessem ser escondidas, assim que se mostrassem, as desordens morais e nervosas, cuja propriedade contagiosa é estabelecida. Enquanto se aguarda coisa melhor, esse lazareto foi encontrado no asilo de alienados. É o único lugar realmente conveniente para o tratamento racional e completo das enfermas de que se trata, quer se admita seja sua doença uma forma, uma variedade de alienação, quer mesmo não admitindo que fossem, sob qualquer título, tomadas como alienadas. É necessário que nelas se produza um certo grau de intimidação; que seu espírito seja ocupado de modo a quase não deixar tempo para se entregarem a preocupações; subtraí-las absolutamente a toda influência religiosa irrefletida e desmedida, às conversas, conselhos ou observações susceptíveis de lhes fomentar o erro, que, ao contrário, deve ser combatido diariamente; dar-lhes um regime apropriado; enfim, obrigá-las a se submeterem às prescrições que seria útil associar a um tratamento puramente moral, e ter os meios de execução. Onde encontrar reunidas todas essas condições necessárias, essenciais, senão num hospício? Teme-se para essas doentes o contato com os verdadeiros alienados. Tal contato seria menos pernicioso do que se pensa e, afinal, teria sido fácil destinar uma ala provisória só para os doentes de Morzine. Se sua aglomeração tivesse qualquer inconveniente, poder-se-ia encontrar compensação na própria reunião; e estou convencido de que o nome de hospício, ou de asilo de loucos, por si só teria operado mais de uma cura e não haveria diabos que uma ducha não pusesse em fuga.”

Estamos longe de partilhar do otimismo do Dr. Constant sobre a inocuidade do contato das alienadas e a eficácia das duchas em casos semelhantes. Ao contrário, estamos convencidos de que tal regime pode produzir uma verdadeira loucura, onde esta é apenas aparente. Ora, note-se bem que fora das crises as doentes mantêm o seu bom-senso e são sadias de corpo e espírito; assim, não há nelas senão uma perturbação passageira, sem nenhuma das características da loucura propriamente dita. Seu cérebro, necessariamente enfraquecido pelos ataques frequentes que experimenta, seria ainda mais facilmente impressionável pela visão dos loucos e pela só ideia de achar-se entre eles. O Dr. Constant atribui o desenvolvimento e a evolução da doença à imitação, à influência das conversas das doentes entre si e aconselha a pô-las entre loucos ou segregá-las num pavilhão do hospital! Não é uma evidente contradição? e é isto que ele entende por tratamento moral?

Em nossa opinião, o mal se deve a uma causa inteiramente diversa e requer meios curativos completamente diferentes. Tem a sua fonte na reação incessante que existe entre o mundo visível e o invisível que nos rodeia, em cujo meio vivemos, isto é, entre os homens e os Espíritos, que mais não são que as almas dos que viveram e entre os quais há bons e maus. Esta reação é uma das forças, uma das leis da Natureza, e produz uma imensidão de fenômenos psicológicos; fisiológicos e morais incompreendidos, porque a causa era desconhecida. O Espiritismo nos dá a conhecer esta lei e, desde que os efeitos são submetidos a uma lei da Natureza, nada têm de sobrenatural. Vivendo no meio desse mundo, que não é tão imaterial quando o imaginam, uma vez que esses seres, conquanto invisíveis, têm corpos fluídicos semelhantes aos nossos, sentimos a sua influência. A dos bons Espíritos é salutar e benéfica; a dos maus é perniciosa, como o contato das criaturas perversas na sociedade.

Em suma, dizemos que uma nuvem de seres invisíveis malfazejos abateu-se momentaneamente sobre Morzine, como ocorreu em muitas outras localidades; e não será com duchas nem alimentos suculentos que serão expulsos. Uns os chamam diabos ou demônios; nós os chamamos simplesmente maus Espíritos ou Espíritos inferiores, o que não implica uma melhor qualidade, embora seja muito diferente pelas consequências, considerando-se que a ideia ligada aos demônios é a de seres à parte, fora da Humanidade e perpetuamente votados ao mal, ao passo que eles são apenas as almas dos homens que foram maus na Terra, mas que acabarão por se melhorarem um dia. Vindo a essa localidade, fazem, como Espíritos, o que teriam feito se a ela tivessem comparecido em vida, isto é, o mal que faria um bando de malfeitores. Deve-se, pois, expulsá-los como se expulsaria uma tropa inimiga.

Está na natureza desses Espíritos a antipatia à religião, porque temem o seu poder, como os criminosos não simpatizam com a lei nem com os juízes que os condenam; e exprimem esse sentimento pela boca de suas vítimas, verdadeiros médiuns inconscientes, absolutamente certos quando dizem não passar de ecos. O paciente é reduzido a um estado passivo; está na situação de um homem dominado por um inimigo mais forte, que o constrange a fazer a sua vontade. O eu do Espírito estranho neutraliza momentaneamente o eu pessoal. Há subjugação obsessiva, e não possessiva. [Vide sobre a possessão Um caso de possessão ; e na Gênese: Obsessões e possessões.]

Que absurdo! dirão certos doutores. Seja; mas nem por isso deixa de ser tido como verdade por grande número de médicos. Tempo virá, mais próximo do que se imagina, em que a ação do mundo invisível será reconhecida na sua generalidade e a influência dos maus Espíritos colocada entre as causas patológicas.

Será levado em conta o importante papel desempenhado pelo perispírito na fisiologia e uma nova via de cura será aberta para uma imensidão de doenças consideradas incuráveis.

Se assim é, perguntarão, de onde vem a inutilidade dos exorcismos? Isto prova uma coisa: é que os exorcismos, tais como são praticados, não valem mais que os remédios, porque sua eficácia não está no ato exterior, na virtude das palavras e sinais, mas no ascendente moral exercido sobre os maus Espíritos. Os doentes não diziam: “Não precisamos de remédios, mas de padres santos.” E os insultavam, dizendo que não eram bastante santos para ter ação sobre os demônios. Era a alimentação de batatas que os levava a falar assim? Não, mas a intuição da verdade. Em casos semelhantes a ineficácia do exorcismo é constatada pela experiência. E por quê? Porque consiste em cerimônias e fórmulas de que se riem os maus Espíritos, ao passo que cedem ao ascendente moral que lhe impõem; veem que os querem dominar por meios impotentes e querem mostrar-se mais fortes. São como o cavalo assombradiço que derruba o cavaleiro inábil, ao mesmo tempo que se dobra quando encontra seu mestre.


43. – “Numa dessas cerimônias – diz o Dr. Chiara – houve na igreja, onde haviam reunido as doentes, um tumulto horrível. Todas as mulheres caíram em crise simultaneamente, derrubando, quebrando os bancos da igreja e rolando pelo chão, em completa desordem com homens e crianças, que em vão se esforçavam para contê-las. Proferem juras horríveis, inacreditáveis. Interpelem os sacerdotes nos mais injuriosos termos.”

Neste momento cessaram as cerimônias públicas de exorcismo, mas foram exorcizar em casa, a qualquer hora do dia e da noite; como não produzisse melhores resultados, renunciaram definitivamente a essa atividade.

Citamos vários exemplos da força moral em semelhantes casos; e, ainda que não tivéssemos sob os olhos um número suficiente de provas, bastaria lembrar a que exercia o Cristo, que, para expulsar os demônios, apenas ordenava que se retirassem. Comparai, no Evangelho, os possessos daquele tempo com os de hoje e vereis uma notável similitude. Jesus os curava por milagres, direis vós. Seja. Mas eis um fato que não considerareis miraculoso, por ter se passado entre os cismáticos:  † 

O Sr. A…, de Moscou,  †  que não havia lido o nosso relato, há poucos dias nos contava que, em suas propriedades, os habitantes de um vilarejo foram atingidos por um mal em tudo semelhante ao de Morzine: mesmas crises, mesmas convulsões, mesmas blasfemais, mesmas injúrias contra os padres, mesmo efeito do exorcismo, mesma impotência da ciência médica. Um de seus tios, o Sr. R…, de Moscou, poderoso magnetizador, homem de bem por excelência, de coração muito piedoso, tendo vindo visitar aqueles infelizes, interrompia as convulsões mais violentas pela simples imposição das mãos, sempre acompanhada de fervorosa prece. Repetindo o ato, acabou curando quase todos radicalmente.

Este exemplo não é único. Como explicá-lo, senão pela influência magnética, secundada pela prece, remédio pouco usado pelos nossos materialistas, porque não se encontra na farmacopeia nem nas drogarias? Não obstante, poderoso remédio quando parte do coração e não dos lábios, sustentado numa fé viva e num ardente desejo de fazer o bem. Descrevendo a obsessão em nossos primeiros artigos, explicamos a ação fluídica que se exerce em tal circunstância e daí concluímos, por analogia, que teria sido um poderoso auxiliar em Morzine.


44. – Seja como for, parece que o mal chegou a seu termo, embora as condições da região continuem as mesmas. Por que isto? É o que ainda não nos é permitido dizer. Mas, como será reconhecido mais tarde, terá servido à causa do Espiritismo mais do que se pensa, ainda quando não fosse senão para provar, por um grande exemplo, que aqueles que não o conhecem não estão preservados contra a ação dos maus Espíritos e a impotência dos meios ordinários empregados para os expulsar.

Ao terminar, queremos tranquilizar certos habitantes da região sobre a pretensa influência que alguns dentre eles teria podido exercer causando o mal, como o dizem. A crença nos feiticeiros deve ser relegada entre as superstições. Que sejam de coração piedoso e que os que estão encarregados de os conduzir se esforcem por elevá-los moralmente. Não há meio mais seguro para neutralizar a influência dos maus Espíritos e de prevenir a repetição do que se passou. Os maus Espíritos só se dirigem àqueles a quem sabem poder dominar e não àqueles cuja superioridade moral – não dizemos intelectual – protege contra os seus ataques.

Aqui se apresenta uma objeção muito natural, que convém prevenir. Talvez perguntem: Por que nem todos os que fazem o mal são atingidos pela possessão? A isto respondemos que, fazendo o mal, sofrem de outra maneira a perniciosa influência dos maus Espíritos, cujos conselhos escutam, pelo que serão punidos com tanto mais severidade quanto mais agirem com conhecimento de causa. Não creiais na virtude de nenhum talismã, de nenhum amuleto, de nenhum signo, de nenhuma palavra para afastar os maus Espíritos. A pureza de coração e de intenção, o amor a Deus e ao próximo, eis o melhor talismã, porque lhes tira todo império sobre as nossas almas.

Eis a comunicação que a respeito deu o Espírito São Luís, guia espiritual da Sociedade Espírita de Paris:


45. – “Os possessos de Morzine estão realmente sob a influência dos maus Espíritos, atraídos para aquela região por causas que conhecereis um dia, ou, melhor, que um dia vós mesmos reconhecereis. O conhecimento do Espiritismo ali fará predominar a boa influência sobre a má, isto é, os Espíritos curadores e consoladores, atraídos pelos fluidos simpáticos, substituirão a maligna e cruel influência que desola aquela população. O Espiritismo está chamado a prestar grandes serviços; será o curador dos males, cuja causa antes não se conhecia e ante as quais a Ciência continua impotente; sondará as chagas morais e lhes prodigalizará o bálsamo reparador; tornando os homens melhores, deles afastará os maus Espíritos atraídos pelos vícios da Humanidade. Se todos os homens fossem bons, os maus Espíritos se afastariam, pois saberiam da impossibilidade de os induzir ao mal. A presença dos homens de bem os faz fugir; a dos homens viciosos os atrai, ao passo que se dá o contrário com os bons Espíritos. Assim, sede bons, se quiserdes ter apenas bons Espíritos ao vosso lado.” (Médium: Sra. Costel).



[1] Os Diabos de Morzine, Livraria Mégret, quai de l’Hôpital, 51, Lyon. [Les diables de Morzine en 1861, ou Les nouvelles possédées - Google Books.]


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